O Filósofo
Este é o espaço do amor pela sabedoria. Se ela é alcançável e em que medida, é para se conversar. Nem sempre há a tão bem-vinda roda de amigos de onde podemos falar da vida, pesquisar sem preconceitos ou apegos teóricos a própria vida! Quem sabe com uma cerveja - substituível por um bom vinho, um suco bem gelado, um cafezinho - alusões ao prazer de viver; à vida como celebração.E pode ser um bom assunto pensar no que nos afasta desse ideal.  

O Filósofo


15.7.04 :::
 
Nenhuma música toca plenamente o que me vai à alma. As poesias, os grandes mestres da palavra, falam tão bem de coisas que me são conhecidas, mas olho para tudo aquilo e sinto até certo alívio em perceber que nada daquilo é meu, nada me pertence por similaridade ou muito ecoa nos resquícios das dores que me moldaram e me tornaram imune à poesia e, ainda assim - talvez por isso mesmo - poeta. Amo a palavra e, assim como tudo que amo, quero-a livre de mim, para que desse modo ela, assim como tudo o que amo, possa me pertencer, da única forma realmente possível de se possuir.


::::::: Publicado às 21:49 :::::

19.6.04 :::
 
DEUS
Deus, em sua infinita bondade, vai-nos arrumar as experiências que nos parecem mais absurdas, cruéis até, mas que restituirão perante Ele, nossa divina filiação. Deus é nietzscheano, e poucos se aperceberam disso.

A vida, se "Deus" pudermos chamá-la, é direta, crua. Os despreparados, os fracos, sobretudo os que se fazem de vítimas e assim mais fracos ainda se fazem, todos esses sofrerão e tornar-se-ão fortes na calejante aprendizagem inevitável. Deus deixou claro a Jó que não era o filho "certinho", que segue Suas Leis tal cordeiro obediente, que buscava encontrar nele, mas o forte que se faz imagem e semelhança Dele, seu Deus. Assim, mandou-o para encarar aquele que o atormentava, que os humanos chamam de diabo, e os sábios, de fraqueza. Eis o Deus nietzscheano! Não há outro Deus.

(retirado do Grito d'Alma)


::::::: Publicado às 00:07 :::::

23.5.04 :::
 
A CONFRARIA
Não vale a pena nos importarmos com os mal entendidos – mesmo porque, sempre haverá aqueles que os fazem de propósito. Melhor é seguir outro caminho e buscarmos aqueles que vão pelo mesmo sentido. Assim, bem assim, disse Deleuze. Tenho então, desde muito tempo tentado juntar esses ets assumidos, esses que nitidamente não são deste mundo e não fazem questão de sê-lo, embora estranhamente lhe dediquem amor. E penso que estamos cada vez mais próximos de algo grande: a composição de tanto amor para direcionamentos comuns, sob a ética de produzirem alegria, sempre.


::::::: Publicado às 00:11 :::::

22.3.04 :::
 
A ode ao dolo
As mentiras, as boas mentiras (que boas nos parecem, entenda-se), as confortáveis, que cooptam nossa coragem, que nos fazem reféns de nossa covardia, como quando ouvimos aquela mentirosa frase, como aquele medroso “eu te amo” – quase como um formal pedido de desculpas, quase como um tratado bilateral de covardia plena, quase uma declaração velada em que juntos reconhecemos que o silêncio e a dor do tédio de cada partícula de pó que dia a dia se deposita na escrivaninha, na mesa de centro, é tudo o que nos resta de verdadeiro, já que nosso vigor, nossa alma criança verdadeira e livre que não aceitaria hipócrita covardia que nos une, por ora jaz sobre os móveis, juntamente com todo esse já tamanho acusador, o tempo que se arrasta.


::::::: Publicado às 00:53 :::::

18.8.03 :::
 
Os sagrados inimigos
Repitamos Nietzsche ad taedium: é preciso também saber amar nossos inimigos, pois são eles que nos defrontam com nosso verdadeiro inimigo: nosso doente, neurótico, desgraçado ego. Então, um dia, milhares de anos a fio, nos reconheceremos todos como o somos sem o notar, a despeito de tantos chamados desses seres espiritualmente emancipados (e não falo, por favor, de religiões): simplesmente irmãos.


::::::: Publicado às 23:29 :::::

 
Os comentários ficam suspensos. Infelizmente. Peço aos queridos amigos, a coerência, pois que não se deve odiar as provas que traz a vida que, na verdade, são nossa vitória contra tudo em nós que ainda é pequeno. Encontrar com o que é pequeno no mundo é apenas um mal sinal e nos indica a necessidade de um tempo de meditação sobre nós mesmos.



::::::: Publicado às 23:28 :::::

15.8.03 :::
 
Os queridos amigos
Estes, os nossos amados, tantas vezes pegos na mesma vaidade que satura a humanidade, desejosos em sua ingenuidade de não nos ofender ou magoar, acabam afinizando com nossas próprias limitações e, neuroticamente, construímos com eles egrégoras de ode a tudo de mesquinho que a nós todos habita. A amizade dignificante é sempre uma expressão política de coragem.


::::::: Publicado às 19:08 :::::

 
Sob a inspiração do mal
As tantas ações deletérias a nós dirigidas só se tornam úteis, verdadeiramente, quando devidamente convertidas em ascensão. Até lá, apenas casam com o mal que já habita nossos espíritos e produzem mágoa. A bênção (sádica que é), consiste exatamente no momento da saturação, quando fartos estamos de tantas mágoas e, simplesmente, em inesperado gesto de monge, deixamos estar.


::::::: Publicado às 19:06 :::::

14.8.03 :::
 
Os críticos
O ser humano, apegado que é em mostrar aos seus iguais o quanto faz o que “é certo” (e, evidentemente, ávido pelo patético e, posteriormente, reconhecido frustrante retorno que isso acarreta) vai além do policiamento ideológico que faz da análise permanente de seu semelhante mas, entre os ditos “mais esclarecidos”, elege alguns “especialistas” que devem dizer porque as coisas são assim, como deveriam ser se assim não fossem e, finalmente, por que é tão lindo que sejam como eles pensam que deveriam ser. As mesmas interpretações, tantas vezes necessariamente, impreterivelmente rebuscadas, mas ainda assim, interpretações. Quando essas pessoas, amiúde, bem pagas, para fazer de sua vontade de verdade, a crítica, se reúnem, torna-se risivelmente patético aos bons observadores, o despropósito desse non sense da vaidade humana. E o embate, desprovido da ética que é a alegria como efeito dos encontros humanos, resume-se à (também tão humana) guerra – que só se torna possível na presença de dois exércitos. É preciso, contudo, repetir sempre: toda a crítica é boa, principalmente as diretamente a nós dirigidas; sobretudo as maldosas, preconceituosas, efetuadas nos mais imundos porões da alma de nossos interlocutores. Ela sempre nos demonstra se e o quanto estamos acima de nossas próprias imperfeições.


::::::: Publicado às 23:20 :::::

 
Os Filósofos
Os amantes do conhecimento – e o que é o conhecimento senão tudo o que nos cerca e que, em ausência, desabilitaria a vida – são aqueles que vêem o conhecimento em tudo que os cerca e, simplesmente, amam. Diferencia-se, assim, a Filosofia, da História da Filosofia, e seus respectivos especialistas.


::::::: Publicado às 23:18 :::::

 
A frustração do mestre
O métier de professor exige dos humanos mestres essa capacidade de compreender que, como disse o bigodudo, tudo são interpretações, e o que importa é – lembrando Spinoza - se essas interpretações produzem alegria ou não. Fácil de explicar, difícil é compreender para além da teoria (isto é, pôr em prática, compreendendo com a alma). Dói quando, por acaso, nossa observação é, em alguma medida, privilegiada, e nós, mestres, identificamos nos discentes erros que os levarão a fracassos, e não conseguimos convidá-los a olhar sob outro ponto de vista. Dói ainda mais quando percebemos a tristeza e a pequenez em nossos próprios olhos e sentimo-nos, juntamente com todos os irmãos que nos cercam, bem-vindos à tão demasiado humana humanidade.
Nossa frustração, retrato de nossa arrogância em querer que nosso conhecimento implique necessariamente na mudança do mundo, tem como bênção o destrutivo encontro com o que é irredutível e, desse modo, a teimosia, a maldade, o preconceito, as más interpretações, a ignorância, a falta de prontidão et tantos ceteras do próximo serão a vitória de todo o mestre, desde que, encarnações a fio, consigamos superar nosso orgulho, nossa vaidade.
A mudança do mundo é, principalmente, a mudança do olhar humano sobre o mundo.
Todos somos, em alguma medida, mestres.


::::::: Publicado às 23:17 :::::

 
O mundo perfeito
O mundo perfeito é sempre a idéia que fazemos desse mundo. Essa idéia, no entanto, é retrato do que vêem nossos olhos e nossas palavras a teorização do modo como identificamos Tudo o que existe a partir de tão pobre crivo. Sendo nossa visão essa ética - a menos que a pretendamos “irrefutável verdade” - necessário se faz a compreensão de que a visão do nosso próximo é o melhor mundo que ele conseguiu para si próprio e exatamente aí reside a importância de aceitarmos o mundo e as pessoas como são, concordemos ou não com elas. Estamos, afinal, olhando o mundo delas sob nossos próprios olhos.


::::::: Publicado às 02:55 :::::

 
E não foi algo de triste em mim que ecoou na tristeza de meus comentaristas e me instigou a responder-lhes, mesmo sabendo ser isso tão pequeno? Minha bênção não foi perceber, exatamente, o pequeno em mim ecoando no grotesco disso tudo?

::::::: Publicado às 02:40 :::::

 
Não. A Filosofia não pode ser um jogo de vaidades em que as pessoas discutem entre si para se sobreporem sobre seus próprios limites - modo insalubre de se apegarem a eles. Isso, embora nos limites humanos ela seja e tenha sido, por tantas e tantas vezes, exatamente isso.

::::::: Publicado às 02:39 :::::

4.8.03 :::
 
Ah! As férias... As tantas vezes férias merecidas de nós mesmos, dos fracassos que levam à aprendizagem, que um dia nos levará plenos ao nirvana distante - embora a transcendência que nos carece é sempre a mais próxima e bem posta mesa de café da manhã - tão palpável, visível, degustável (em uma palavra: vivenciável). Tantas outras férias nos permitem também certa distância de um trabalho-tormento, para um mundo idílico de paisagens bucólicas tão distantes do cotidiano retumbante da rotina. Minhas férias que ora terminam, nem uma coisa, nem outra, foram o retiro de um jovem eremita, em qualquer caverna mas na minha (para parodiar uma querida pessoa), onde ouvi mais do que em tantas linhas aqui escritas, minha alma.
Sim, muito passeei, muitas pessoas tão amigas conheci, a tanto mundo propus aquela confraria de que tanto sonho. E minha caverna, a me acompanhar, sempre.
Estou de volta, queridos amigos.


::::::: Publicado às 02:29 :::::

29.7.03 :::
 
Metafísicas orientais
Apenas uma analogia interessante - sobretudo após a multiplicação fenomenal de vítimas da rotina urbana a procurarem por Ioga, Do In, dentre tantas técnicas de meditação/relaxamento orientais, para a sobrevivência do cérebro como força de trabalho: sabe-se que, grosso modo, sob tais perspectivas a essência humana estaria dividida (este é, evidentemente, um resumo incrivelmente grosseiro) em alma - que seria a "chispa" divina, o que possibilitaria a vida estar "viva", o espírito - que cumpriria os desígnios da alma e, por fim, a mente, dotada de inteligência em maior ou menor grau, que seria o instrumento do espírito para a realização da alma. Esse assunto, aliás, já foi abordado neste espaço há algum tempo e pode ser consultado para maiores elucidações.
Pois bem; sob essas óticas (eis o que considero importante), a mente deveria estar a serviço do espírito e não o contrário, e a superação budista do ego consistiria exatamente nessa labuta.
Serão as milenares noções orientais importante táboa de salvação a nos livrar, de alguma maneira, das perversões kantianas?

::::::: Publicado às 09:52 :::::

 
Eu, enquanto ser humano
O mundo, kantinano que é, cobrará sempre pela lei, por uma ordem aparente que nos assegure contra a tão perigosa loucura. A normalidade é esse caminho e é-lhes difícil, naturalmente, definir a arte. Fazê-la, então, impossível, a menos que desacoplados da mente guardiã. E depois, sabemos, a explicação pode ser assistida enquanto se mantiver risível e, após tais fugazes momentos, é preciso salvaguardar nossa sanidade bem longe dos especialistas. Seja! Séculos kantianos adentro, a fome ainda será mais importante que a poesia, ainda que sejam, absolutamente, resultados da mesma pobreza - que é a de espírito.

::::::: Publicado às 09:37 :::::

3.7.03 :::
 
Sobre o futebol e sobre a humanidade
Carta a um amigo
Há bem pouco tempo, como se sabe, em decisivo jogo de futebol, realizado no estádio do Morumbi, na capital paulista, o Santos Futebol Clube perdeu o título da Copa Libertadores da América para o clube argentino Boca Juniors. Nessa ocasião, não pude deixar de reparar que uma verdadeira nação de torcedores de times paulistas adversários, sobretudo corintianos, torceu contra o time praieiro. Curiosamente, faz muito pouco tempo – mas pouco tempo mesmo – tantos amigos corintianos eventualmente torciam para o Santos como se este fosse seu segundo time: era época em que o Santos debutava anos sem títulos significativos e, talvez por isso mesmo, não era considerado adversário a altura. Esses mesmos todos amigos, nesse jogo decisivo, torceram em sua maioria para o time argentino. O que teria acontecido? Como teria o Santos angariado tão rapidamente esse ódio gratuito de pessoas que há pouco simpatizavam por ele (no caso dos corintianos, até pelas cores alvinegras)? A resposta, fácil, estava na boca (com o perdão do trocadilho) de muitos alvinegros paulistanos: se a situação fosse contrária, os santistas torceriam contra o Corinthians, como já o fizeram outras vezes recentemente. E o terrível é que tal explicação parece absolutamente coerente. Em algum momento, em algum gesto coletivo de inveja (e, ódio, conseqüentemente), o que poderiam ser torcidas “irmãs” tornou-se odiosa rivalidade. E, em nome de tudo isso, torcer para o time argentino virou a saída para tantos (e pensar que há décadas, times brasileiros trocavam integralmente suas camisas pelas da Seleção Brasileira de Futebol, algo hoje em dia, impensável).
Ainda sobre o referido jogo, o ex-jogador e ex-drogado argentino Maradona se referia aos adversários brasileiros como “macaquitos” – coisa comum à imprensa marrom argentina, talvez pista indelével para a explicação sobre o desprezo de que os cidadãos daquele país são vítimas em tantos países latino-americanos. Com tantos personagens antológicos, tantos seres humanos dignos de inspirar os mais nobres sentimentos de nacionalidade (Che na política, Piazzola nas artes, Juan Miguel Fangio no campo dos esportes, só para citar exemplos), por que tantos daquele país escolheram exatamente como ídolo esse craque tão perfeito na técnica quanto no desprezível ódio e na tantas vezes demonstrada fraqueza de caráter? E, seguindo igual raciocínio, por que foi tão fácil a tantos santistas torcerem contra a felicidade daqueles que até então eram apenas adversários dentro das quatro linhas dos gramados? E por que foi tão fácil a tantos corintianos aceitarem a provocação do ódio e torcerem contra aquele que era um time de seu país e que há tão pouco tempo era visto com simpatia?
Definitivamente o ódio ainda é mais forte que a compreensão – e tudo só é assim porque o caráter humano (em alguma medida o meu e o seu também, caro amigo) não padece de um mínimo de grandeza e amor próprio, a ponto de em nome do “orgulho” (vaidade e ignorância, na verdade), sentirmo-nos ofendidos e aceitarmos tão livremente as veredas do ódio.


::::::: Publicado às 22:33 :::::

24.6.03 :::
 
Algumas rimas inocentes que escondem - eu sei - verdades póstumas.

::::::: Publicado às 01:53 :::::

 
O Grande Irmão
Na medida em que forçados somos a aprender a vaidade
Afastamo-nos do real que é, afinal, a nossa verdade
Tornamo-nos, desse modo, os mais inusitados dos desgraçados
Que somos aqueles todos, os bem alimentados

::::::: Publicado às 01:52 :::::

 
Da importância dos animais
Adoráveis cãezinhos, gatinhos, passarinhos, têm feito, tantas vezes, para delírio de seus donos, demonstrações claras de ardente ciúme.
Tanta humanidade acostumada a tais acontecimentos não entende a dica "de Deus" e não se digna a ficar vermelha por si própria.

::::::: Publicado às 01:49 :::::

18.6.03 :::
 
CELEBRANDO O MISERÊ
Movimento 1: prolegômenos

Pouco sabem muitos amigos que por trás do pretensioso cognome de Filósofo – que considero mesmo, mas apenas no que minha alma tiver de pura – sou um educador de métier. Essa condição me levou a conhecer muito do ser humano, a aprender muito sobre seus limites e, nessa perspectiva, a conhecer intimamente a extensão da minha própria vaidade. Nós educadores, perecemos, em geral, do grande mal de acharmos que o mundo tem que ser necessariamente melhor depois de nossa atuação (que é diferente de trabalhar por esse ideal com humildade). Dessa maneira, absolutamente não compreendemos quando alguém, geralmente alunos, simplesmente não querem aprender. Buscamos abrir-lhes os olhos, mostrar-lhes, claramente, o mundo ao seu redor, e eles dão com os ombros. Pior são aqueles que dizem compreender, que têm pleno domínio do conhecimento córtex cerebral adentro e que fora continuam tais e quais, com as mesmas maneiras desprezíveis e com o mesmo estado de espírito pobre. Em outras palavras, para nós educadores (e todos em alguma medida o somos) aquilo que nos é importante deve ser-lhes também, assim como o que nos é caro e os valores que nos são nobres e, acima de tudo, nosso tempo deve ser o tempo daqueles a quem ensinamos algo.
A vida então, sábia que é, abençoa nosso esforço, dando-nos quantos alunos forem necessários para que estes ensinem-nos sobre a importante lição da vaidade: o mundo é aquilo que é. É preciso aceitá-lo assim, o que não significa concordar com ele, nem cruzar os braços fazendo beicinho, mas ter a humildade de fazer o que nos é possível e apenas pelo amor à tarefa de fazer.
Querer que nosso aluno veja sob nossa ótica é tão injusto quanto querer o mundo que nós o compreendamos de pronto. E dessa forma, ao negarmos compreender que as coisas são como elas são, estamos repetindo exatamente o que tachamos de erro em nossos discentes.
O mundo nos dá tempo para aprender e cada um tem seu próprio tempo. Considero o Cristo um verdadeiro gênio quando resumiu tudo isso na famosa frase: “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”.

Movimento 2: a segunda pedra
Difícil, tão difícil é não atirar pedras, é não ser mau, odiento, vingativo, é perceber ao atirar qualquer pedra que esta se fará bumerangue e invariavelmente, em alguma medida, voltará sobre nossas cabeças, por ainda mantermos o orgulho do “ser tão sabedor e aos outros querer ensinar” ainda não ofuscado diante de tanto sofrimento.

Que tipo de humanidade será essa que não atirará pedras? Do pouco que posso afirmar, seus professores (nós, todos nós, queridos amigos) serão mestres porque nunca se esquecerão que são alunos.

Movimento 3: da beleza de ser eterno aprendiz
Tantas pessoas têm verdadeira adoração pelos desgraçados. Têm-lhes dó, fazem-lhes odes e tão pouco adiantou Joãozinho Trinta elucidar que quem gosta de pobreza é intelectual. Mas não só eles! Sem percebemos, nós quase todos damos incrível valor ao que é difícil, ao que só é conseguido com luta, com sacrifício (como se a vida fosse expressão de uma interminável guerra, sendo essa sua suposta essência). Lamento por aqueles que à desinteressada pergunta diária do como vai, invariavelmente respondem: “na luta!”

Movimento 4: ação pela cidadania
O desgraçado foi criminosamente privado das condições mínimas para que ao menos pudesse, diante de tantos professores de métier, negar-se a aprender, como todos nós (os letrados) nos negamos a deixar de atirar pedras.
Não que, com segurança, pudéssemos afirmar que eles, desgraçados, teriam melhores chances porque lhes seriam oferecidas condições de vida melhores. Não acredito apenas nisso. A desgraça seria atenuada na exata medida que a sociedade demonstrasse interesse em oferecer a todos, indistintamente, condições para que estes todos também pudessem negar a lição e, ingenuamente, ignorar o esforço do mestre. O interesse honesto de todos nós, mais que as condições oferecidas por um Estado transcendente, denotaria uma sociedade mais saudável.
Mas se a sociedade que se nos apresenta é essa, que se faça mais presente o Estado, mas para além do assistencialismo, buscando políticas públicas que o tornem grande professor tentando insistentemente que seus alunos aprendam.

Movimento 5: novo leviatã
Mas que dor é essa que a todos paralisa? Que ausência de eu é essa que cria a ilusão de um eu egocêntrico e transcendente, mas que se mostra frágil por simplesmente ser incapaz de vivenciar minimamente um “Nós”? A superação budista do ego não seria exatamente a negação da vaidade capitalista de esperar do outro (o pai, o marido, o chefe, o mercado) a aprovação, negando assim a nós próprios?



::::::: Publicado às 03:26 :::::

17.6.03 :::
 



Bons amigos! Não deixem de conhecer "O Grito d'Alma": é "O Filósofo" que grita...

::::::: Publicado às 01:21 :::::

 
Crescer
Desde quando eu pude desenvolver em mim algum senso moral, pude perceber que eu, a partir desse momento, sempre fiz tudo o que podia, tudo o que parecia ser o melhor, o mais certo, o mais bonito até, em todas as oportunidades, e das dores das más escolhas, de erros egoístas e vaidosos, das sérias tentativas imaturas de, como um super herói, tirar as dores do mundo - ou ao menos do mundo daqueles que eu sempre dediquei amor - eu acabei desde então por me consolar (ao passo que curiosamente nunca me conformei) que o que fiz era tudo de melhor que eu poderia ter feito e, acima de tudo, que se eu penso hoje em outras saídas, outros epílogos, prólogos, roteiros, estes só vieram do amadurecimento de experimentar aquela chance única que na época eu poderia experimentar e só dela, pagando integralmente o preço por toda minha tamanha imaturidade e ignorância.


É assim, sem fôlego - como foi, tem sido e, por tanto tempo, ainda será, viver tudo isso. E só então, como se fosse possível imaginá-lo, a dor não mais seria minha mestra, nem macularia de calos a ascensão da minha alma.



::::::: Publicado às 01:04 :::::

 
Enquanto leio meus poetas
Ah, meu entusiasmo juvenil de alma velha que de saber em saber regride ao frescor da infância em certa pureza em si, em certo amor gratuito... Imagino, nessa hora que pletora, uma Confraria; um grande grupo de almas unidas em beleza e na grandiosidade da criação, que aproxima Criador e Criatura em uma grande construção que é o mundo, para além dos nossos olhos e ouvidos viciados. Será nossa sensibilidade maior que nossas dúvidas? Lamento ter segurança ao dizer firmemente que não, que ainda não; nós os legítimos herdeiros do planetinha azul... mas enquanto criamos – pelo menos nesse sagrado momento – estamos para além de tudo que nos diminui e nos aprisiona nas aparências da mente, na estupidez do orgulho, no pateticismo da vaidade.


::::::: Publicado às 00:55 :::::

17.5.03 :::
 
O amor humano (para encerrar)
O amor tem limite.
O limite do amor é o limite do ser humano. Ama-se até o quanto as fraquezas são acionadas; e se superam o amor, este é trocado pelo amargo crescimento, necessário para que novas fraquezas da mesma natureza não venham, no futuro, a eclipsar, novamente esse amor.
O crescimento na medida da dor.
A maturidade do amor na medida da superação.
O amor na medida da transcendência do ser humano do porvir.

::::::: Publicado às 23:32 :::::

14.5.03 :::
 
Se o esquecimento pode ser remédio para a lembrança que dói, é, ao mesmo tempo, sinal indelével que a lembrança não foi superada, incorporada, como seria o veneno de Nietzsche - aquele que se não mata, fortalece.
É preciso ser maior que aquilo que nos diminui. E se a lembrança se faz bela, mais ainda se justifica tomar conta dela, como de uma fera-filhote que, sem mãe, sobreviverá apenas se domesticada; como de um pequeno e bonito jardim, devidamente erigido n'algum distante canto d'alma.


Pequeno roteiro para uma alma em paz
Encarar. Olhar a situação de frente. Seja ela qual for.
Enfrentar a dúvida. Parar de tentar convencer a si e aos outros com desculpas (mesmo porque, desculpas não tiram culpas).
Converter o frágil temor em sólida certeza do que quer que seja (o medo é péssimo conselheiro).
Cumprir as promessas feitas a si mesmo.
Olhar nos olhos. Sempre. De todos os envolvidos. Sobretudo no espelho (chorar se for preciso). Então, (só então) decidir.
Conquistar a paz de espírito é meta permanente. Simultânea.
Todo o tempo.
Com honestidade. Para consigo. Para com o mundo.
Em tudo.
(Tirados d' O Grito)


::::::: Publicado às 13:29 :::::

8.5.03 :::
 
Humano amor
Quantos meia dúzias dentre os grossos seis bilhões estariam preparados para o amor magnânimo? Quantos meia dúzias têm a exata noção do próprio valor?


::::::: Publicado às 01:24 :::::

 
Bela frase para minha lápide:
Tudo já foi dito!
E, o que, Deus, o que eu vim fazer por estes prados?

::::::: Publicado às 01:24 :::::

7.5.03 :::
 
O grito d'alma
Aviso aos queridos amigos que "O grito d'alma" está no ar.
Grito d'alma é O Filósofo que grita, que chora, que exulta; é o coração que fala; a alma... Mais poético, literário talvez; diferente, certamente, como tudo, aliás...

::::::: Publicado às 00:01 :::::

4.5.03 :::
 
O meu Amor
O meu amor seria capaz de um amar absoluto? O meu amor seria capaz de um amor acima das convenções? O meu amor poderia me amar sem deixar de amar profundamente todas as pessoas que já ama e tem amado até aqui? Poderia exigir-lhes (de todas, sem exceção) a verdadeira fidelidade, na medida em que imporia às pessoas que ama, sobretudo às oficiais, de “papel passado”, seu direito de amar (com) um amor acima das formalidades sociais, um amor que permite viver todos os demais, um amor que liberta, que não precisa de sexo (não mesmo), ou presença física (não mesmo), que não tem ciúme (ou luta por superá-lo por reconhecê-lo ridículo e indigno do verdadeiro sentimento magnânimo que é o amor)?
Assim, o meu amor poderia exigir-me seu lícito direito de amar as pessoas dignas de tal sentimento e fazer-me igual necessária e fundamental concessão?
Por que sofrer com escolhas estúpidas, desde que exista o sentimento e ele seja verdadeiro? E, por que escolher e classificar, se o amor agrega e multiplica?
Se eu não cobro do meu amor, senão o próprio amor, seria ele digno do meu amor, na medida em que permite que o egoísmo humano lhe seja estertor? Ou o amor do meu amor nunca, mas nunca mesmo, foi, verdadeiramente, amor, mas apenas posse, egoísmo vil e fraqueza de caráter?
Meu amor tentaria aprender e tentar crescer, senão por si próprio, mas pelo menos por mim?

::::::: Publicado às 14:47 :::::

 
O amor e o apego
Falei há pouco sobre o amor. Estará a humanidade preparada para ele? Quando estará? Quando o amor poderá expressar-se sem cobranças ou posse, aproximando-se dos exemplos dos sentimentos entre pais, filhos, irmãos e verdadeiros amigos (quando tais exemplos podem ser dignos)? Quem de nós, quem da nação humana é capaz de, fora do ninho da família, expressar esse amor sem posse, sem insegurança, sem a necessidade do suor dos corpos? Não é o suor dos corpos a exata medida do quão material se faz o a humanidade que o classifica em termos de um tipo de “índice” de amor, na medida em que precisa ser mediado por algo de nome “fidelidade”? O suor na medida da fidelidade entre os que se amam! Promiscuidade e fidelidade não são a mesma coisa, absolutamente o mesmo sentido – ambos apego à matéria? E o amor, o verdadeiro amor não deveria estar acima disso?
Amigos que se amam temem “estragar” seu amor se, no meio de tão puro sentimento, aparecer o sexo ou a sensualidade. Reconhecem seus próprios limites, temendo o quão são frágeis diante da própria falta de amor próprio, da falta de noção de si. A sensualidade, expressão da matéria, do império da carne sobre o espírito, é mais forte que eles e seu puro sentimento. Na verdade, não é exato que, entre os que se amam, a sensualidade é mais forte que o amor. O que se faz mais forte é a insegurança, a falta de valor de si próprio, em uma sociedade que valoriza mais a percepção do outro, esse juiz externo; uma sociedade que acostuma o “eu” a ser absolutamente secundário pois o outro, esse lugar hierárquico do chefe, dos donos dos meios de produção para usar um jargão de cunho marxista, se espalhou micropoliticamente em cada casal de namorados, em cada trepada mal dada, em cada demonstração de ciúme doentio. Já disse aqui que o egoísmo não é excesso de ego mas sua absoluta falta, em exatas proporções.
A medida do amor (o que assim chamam as pessoas) é a aprovação do outro. E se não é possível ter a aprovação do outro, não sou bom o suficiente. Possuir é um jeito de vencer a frustração de não ser bom o suficiente. Um jeito bem idiota, é verdade; é a base da neurose humana ocidental, pois se o outro é a medida de mim mesmo, eu nunca serei bom o suficiente.
O amor raramente é Amor. É bem antes disso, apego. É absoluto egoísmo.

O engendrar da mentira na sociedade liberal burguesa
A mentira só é necessária na exata medida em que a verdade não se sustenta entre egos frágeis. A verdade, onde quer que apareça, é imediatamente revolucionária. Temê-la é uma forma de perceber a própria pequenez.


::::::: Publicado às 14:11 :::::

 
A espiritualidade
A verdade é o que há de irrefutável e esse platô só é acessível aos Nobres – aqueles que superaram a moral e atingiram a verdade, a Grande Ética. Essa é a ascensão moral que culmina com a própria superação dos valores. Tal processo já começou e estamos em plena Era do Espírito (sim, é uma metáfora aos kardecistas, e um comentário trocista aos deleuzeanos – e não, evidentemente, a Deleuze que certamente divertir-se-ia com meu gracejo).
Aos humanos, imaturos ou indispostos para a grande emancipação, resta um planeta que gira em velocidade incrível sobre si próprio, o que torna o tempo e, sobretudo, a sensação do tempo, algo leeeento... A noção do Eterno se esvai, esmagada por um transcendente Agora (creio que Deleuze gostaria dessa também).

::::::: Publicado às 14:05 :::::

20.3.03 :::
 
Ainda sobre o amor
O amor do nobre basta a si próprio. É o ato de amar oceânico, cósmico (como nos pré-socráticos) e necessariamente ético. Não lhe cabem mentiras ou inseguranças – portanto ele não é passível de posse, sendo em contrapartida a própria expressão da liberdade. Não é volúvel, vulgar ou eufórico, mas brando e suave. Não obstante, diante das fraquezas da maioria de frágeis seres amados pelo Nobre, este deve guardar para si seu tão belo sentir. E para aqueles que lhe puderem retribuir ao menos o esforço em prol do próprio crescimento podem-se abrir os portais para a compreensão de tantas coisas – do próprio amor... da vida, por que não?
(e como falar do amor sem que nos visitem doces versos?)


::::::: Publicado às 18:38 :::::

13.3.03 :::
 
Nobre amor
Não se ama alguém, vida venturosa, cotidiano sempre singular, sem antes amar a si próprio e, nessa medida, amar o próprio ato de amar. Sendo dignos de nós seremos dignos de tudo o que a vida nos brindar. Não sendo dignos, ainda assim a vida há de trazer colheita afinada com tudo o que se fez antes, em quando do sempre permanente plantio. Dessa forma, meu amor, esse sentimento é afim com meus olhos e, conseqüentemente, com a forma adorada como douras meus horizontes. Como me vês, depende dos teus olhos e para mim importará apenas que nunca morras dos meus olhos. Como não ser digno de ti assim, oh, indelével?

::::::: Publicado às 19:07 :::::

 
A Educação e a Potência da Filosofia
"(...) A filosofia não é uma Potência. As religiões, os Estados, o capitalismo, a ciência, o direito, a opinião, a televisão são potências, mas não a filosofia. A filosofia pode ter grandes batalhas interiores (idealismo - realismo, etc), mas são batalhas risíveis... Como as potências não se contentam em ser exteriores, mas também passam por cada um de nós, é cada um de nós que, graças à filosofia, encontra-se incessantemente em conversações e em guerrilha consigo mesmo (...)." (Gilles Deleuze)

A Potência tudo toca.
A partir dela, tal processo kafkaniano, “tudo [invariavelmente] havia mudado”. Mas qual potência, senão a emancipação do Eu, pode transformar? E em termos de Educação para o povo, não seria esse o ideal mais nobre – digo, da Educação como Potência? Nesse sentido é muito salutar a idéia da “guerrilha consigo mesmo” – até porque, em muito pouco, mas muito pouco mesmo colabora a crítica daquele que acha que detém a verdade, mas que ainda pouco fez com ela a respeito de si próprio. Em nossas intercaladas vidas temos dito isso, eu aqui e ali e Deleuze tantas vezes em suas obras pelo mundo. Trata-se daquelas verdades que é preciso repetir sempre, pois que já os nórdicos na Antigüidade diziam que a maior batalha é a batalha do eu.

O secular livro escrito pelos homens e a Lei: uma releitura
Há poucos falava eu da Bíblia como obra fictícia, a imagem e semelhança dos imperfeitos, impotentes e tão distantes da nobreza, seres humanos. Talvez tenha errado. Na realidade, embora como exercício de reflexão exista exatidão no termo “talvez”, devo dizer que tenho, em verdade, certeza: eu errei. Assim como em Jó, Deus demonstrava requintes nietzscheanos em sua obra, em boa parte do velho testamento, onde o que encontramos é a Lei, uma Lei absurda, mas necessária a tão patéticas criaturas humanas – bem melhoradas moralmente falando nos dias de hoje: já conseguem entender, por exemplo, Nietzsche e Deleuze, embora pô-los em prática ainda seja, irremediavelmente, para os seis milhões, excetuando-se os meia-dúzias, assunto para mais próximas encarnações a fio. No entanto, à época e aos povos a quem eram destinados tais abjetos textos, havia, por certo, afinidade. Filosoficamente seria essa mais uma suposta prova da também suposta inteligência divina. Devo, mais uma vez reconhecer: no meu entender, não há dúvidas quanto a essa inteligência. Basta observar a ordem presente no caos. Mas, realmente deve importar para o verdadeiro filósofo divertir-se em compreender a vida.

::::::: Publicado às 18:51 :::::

10.3.03 :::
 
O amor
Alguém. Algo de muito especial. Vida! O amor que nos move, Poesia; o amor por nossos projetos, nossos objetivos, nossos caminhos (sempre aqueles que emancipam, que alegram, que pletoram de vida). Você: o tudo que me motiva para mim mesmo, em cuja realização edifica-nos e transcende o nós. Eis, meu amor, meu amor. É assim, tudo o que me cerca. Tudo que me é possível perceber.
E, pelo amor, tudo o que é possível amar.

::::::: Publicado às 13:12 :::::

 
Sobre Deus, os dogmas e as religiões
Antes de prosseguir, em nome da necessidade de repetir sempre a verdade convém parar um momento. De que falará este Filósofo ao mencionar Deus, “iluminação”, almas, enviados etc. senão meros arquétipos do Ser Humano do porvir? Ou não desconfiarão meus leitores que já há bispos demais, fé cega demais? E por falar nisso, qual será a melhor interpretação de Deus senão a que cada um de nós se esforçar em fazer, caro Leitor-Filósofo, ainda que esse deus criado pelos torpes desejos humanos simplesmente não exista? Assim sendo, qual é o seu Deus?

A alma do bruto: o derradeiro conto de fadas da humanidade
Diz a lenda que Deus teria criado todos simples mas, ainda assim, seriam Sua imagem e semelhança. Uma aparente contradição!
Ainda assim, a alma, a “chama divina” como dizem alguns iniciados, clamaria no peito das crias, desejando, como porção de Deus que é, ascender às belezas e a tudo que signifique elevação. As almas não desejariam dor, doenças, mórbidas existências, nada disso. Mas, como o id de Freud, as almas desejam, e ao desejarem, inspiram para o Alto. E sendo elas todas criadas tão simples, falta-lhes, a despeito de tão radiantes emanações do coração (habitat da alma), inteligência. Essas almas, pequenos devires do próprio Criador, presas, uma a uma, a aparatos biológicos, treinam estratégias de realização de seu desejo de transcendência, tão logo percebem, após tenra idade, que o mundo não se limita a elas próprias: existe o bom a ser buscado e o mau a ser evitado.
Para querer o bom (de início confundido com o bem) elas percebem que em seu caminho encontram-se outras almas com o mesmo objetivo. E o que é bom? Tudo que faça bem: estar alimentado, agasalhado, cuidado e saciado... tudo isso é muito bom. Para buscar o que é bom, as almas precisam fazer vibrar, fazer mover seus aparatos biológicos – presentes dados por Deus para que elas possam, um dia, retornar a Ele pela inteligência e não apenas pela aspiração ao bem (podendo ser, dessa forma a realização plena de Imagens e Semelhanças Divinas). Para o desenvolvimento da inteligência, o Criador teria também criado condições diferenciadas para conduzir a aprendizados diferenciados: aparatos biológicos maiores (para que suas almas aprendessem sobre o uso da força) e outros mais frágeis (para que as almas aprendessem sobre a astúcia) e diversas condições ambientais para que os tão diversos aparelhos pudessem treinar e conhecer.
Rapidamente os fortes aprenderam a usar sua força e os fracos sua astúcia: fracos unidos tornam-se fortes – o que forçava os fortes a também treinarem sua astúcia. Guerras sanguinolentas, regidas pelos instintos de conservação e pelas insipientes inteligências trouxeram aos toscos seres as duras leis de Moisés – adequadas a tão bárbaras criaturas. O deus dessas almas perdidas no tempo só poderia ser um deus despótico, imagem e semelhança de sua própria estupidez. Presas de suas fraquezas, as almas enfrentaram seu maior inimigo: o orgulho. Já tinham inteligência para saciarem a si próprias atuando dentro de seus grupos e regidas pelas diversas leis que Babel permitiu. Percebendo-se tão pequenas, tão frágeis, sustentavam seus frágeis egos em odienta megalomania: umas se mediam com outras e concluíam serem superiores em alguma coisa e escondiam sua fraqueza nesse sentimento de falsa superioridade.
Umas raras delas conseguiram se reunir novamente ao Todo, conseguiram perceber que a grandiosidade de cada um está em si. Pelo simples fato de cada uma ser única, e que o programa divino previa que cada uma deveria em suas experiências desenvolver esse eu para poder retornar ao Todo sem se perder nele.
Estando a grande maioria a fracassar em suas provas, Deus resolveu enviar uma das mais adiantadas almas, que pelo desenvolvimento, longe se achava daquele campo de provas, para restituir-lhes ao caminho do crescimento: A inteligência já poderia encampar o conhecimento necessário para reduzir o tempo de jornada.
A alma emancipada escolheu um povo simples, mas de muita fé (necessária para a emancipação: a fé da alma em si própria), mas uma fé mal dirigida. Veio a eles a elevada alma, falou sábias palavras e acabou pregada a um pedaço de pau, porque seu orgulhoso povo esperava um messias para torná-los reis, e humilharem todos os povos diferentes – pouco ouvindo a mensagem acerca de que não há esses povos diferentes.

Sobre a Lenda
Oxalá toda essa interpretação fosse lenda. Oxalá não guardasse em si qualquer centavo de verdade. Mas qual os arquétipos junguianos, aí está em rápida alegoria, a sofrida história da humanidade.

Sobre as Leis
Agora melhor ilustrada a senda lenda humana, compreenda-se de uma vez: as Leis são necessárias na igual proporção da descontrolada estupidez humana. Os seres humanos do porvir substituirão as Leis pela Ética (os valores estarão submetidos a sua aplicação, não a um código rígido, destinado a combater a indisciplina humana).

Sobre o gesto de dar a outra face
Para compreender a humildade como gesto de grandeza, compreenda-se: dar a outra face não é um se diminuir mas uma ação movida pelo sentimento de lástima que tem o Nobre em relação aos ainda tão pequenos. É preciso lembrar outro gesto semelhante, ilustrado pela frase “Perdoai, pois eles não sabem o que fazem.” Não se trata de fraqueza, mas de desprezo.

Sobre a morte dos mártires
Os líderes representam o próprio caminhar de seu povo. Se caem, demonstram que ainda frágil se mostra a firmeza de seu povo para consigo próprio. Das lágrimas desse povo, do sentimento de orfandade quando perdem seus enviados, surgirá a reação de suas almas a seguir-lhes os exemplos. Do martírio, em cruz, no fogo, degolados ou com seus cérebros atravessados por barras de direção, surgirá a emancipação de tantas almas.
Os mártires, no entanto, torcem por suas vidas, para que possam continuar suas mensagens de Esperança e Nobreza. Se não lhes for possível ver afastado o cálice amargo, a Vida segue seus desígnios.

Sobre a mistificação
Dotar o mártir de excessivo valor é uma maneira covarde de se afastar da possibilidade de um dia alcançar-lhe igual iluminação (e de, conseqüentemente, continuar comodamente a se colocar como cordeirinho frágil a mercê da misericórdia de Deus).


::::::: Publicado às 12:18 :::::

23.12.02 :::
 
A realização do eu
Se tudo invariavelmente toma seu jeito, tudo se realiza seguindo Leis ainda tão incompreensíveis à humanidade (a despeito do esforço de alguns raros Nobres que compreendem) e isso tudo é expressão do Grande Todo, então o que efetivamente podemos fazer para colaborar na construção da suposta Grande Obra? Realizar o Eu é a resposta. Todos os grandes mestres que realizaram seu Eu melhoraram a humanidade em seu trabalho de cuidar de si.

O Filósofo – um nome próprio
Em verdade, a forma como está grafada a palavra que costuma designar aquele que filosofa nunca foi-me alvo de reais preocupações. Mas é preciso sempre poder prever, e pensar nas crianças a quem estes tais esforços literários se destinam: ao grafar especialmente a palavra em alguns locais com letra maiúscula e em detrimento de outros desses locais, pode-se aqui indicar – pensarão alguns – uma designação específica válida para, talvez aqueles que fazem da Filosofia um acesso grandioso à vida (eu próprio cheguei a falar dos ourives das escrivaninhas, sua antítese).
Bem, talvez assim poderia eu ter procedido em relação aos grafismos, se me permitirem ser risível, inconscientemente, já que eu próprio não me ative muito a tal detalhe como já atinei. Mas seria esta ocasião – a descoberta desta porta de entrada para o Pensamento: o detalhe do grafismo das palavras – imperdível para apontar, de modo cristalino, para algo muito importante: façam-me, sempre, a melhor interpretação e esta, desculpo-me por precisar repetir tanto e sempre, é tudo o que torna continente a Vida.

O nome próprio
Não há novidade quanto ao que falo aqui referente à aplicação do nome próprio. Já o fez o Francês Voador, salientando a dificuldade de tal atitude. De fato, falar em nome próprio, só se é possível após um exercício vigoroso de despertencimento de si mesmo; de ser um com o mundo nos poucos momentos que nossa ainda incipiente nobreza permite. Essa é a expressão do ser, do verdadeiro eu, da verdade. Não é, portanto, expressão de nada, salvo do estar atualizado com os torvelinhos de encontros que constituem a vida. Essa é a vereda rumo à iluminação das almas.

Como interpretar corretamente a Verdade em uma lição prática
Não, nada há de especial em meus textos: são seus olhos que os lêem e que podem (ou não!) interpretá-los de modo grandioso. Assim também para as literaturas insípidas; para as paisagens descartáveis ou para tudo quanto há de belo, perfeito, magnânimo: quem há de julgá-los e em função do quê o fará?
Por isso peço e, melhor ainda, imploro: interpretem bem meus textos em nome de minha memória. E façam o mesmo com o mundo, em nome de toda a humanidade... Eu lhes digo, em verdade: façam-no em nome de Deus – daquele Deus: o princípio que habita-lhes o corpo e que faz de cada ser humano, com Ele, Vida.
(Ah! A Filosofia... A Poesia...)


::::::: Publicado às 00:46 :::::

20.7.02 :::
 
Prolegômenos
A verdadeira filosofia não é o resultado destas linhas. É o processo. Ser amigo do conhecimento é estar aberto a ele. É estar aberto à vida. Para estar aberto à vida, certo masoquismo é necessário, pois que, estamos abertos à dor (isso para quem – a maioria! – que se sugestiona para esperar pelo mal, pela dor). Para tanto é necessária e fundamental a alegria. E é por isso que o filósofo das escrivaninhas se fecha em seus modelos kantianos que querem ditar como a dor deve ser ao invés de se expor e deixá-la marcar indelevelmente e para sempre o seu corpo com o acontecimento único propiciado pelo encontro perpétuo e singular: a cada momento, com cada coisa que sabemos, é sempre diferente.
* * *
E isto não é, em si, um sistema? Eis sua pergunta maldosa. Sua má consciência. Não! Isto são marcas. Pistas. Lao Tsé deixou pistas (que nem mesmo escreveu). Deleuze deixou pistas. Não há como ser deleuzeano sem matar Deleuze. Mas o caminho para não se ser deleuzeano só pode ser matá-lo de um jeito diferente: deixá-lo de lado; usá-lo, como se usa um sapato, não como se usa a Bíblia ou o Alcorão. Ou assistir pateticamente sua morte pela voz do amigo – não da filosofia, que é dor, que é encontro – mas da moral, que é apenas efeito.
* * *
Não se ensina o efeito. Vive-se. A moral é efeito. Ou é aguilhão – aquele do Elias Canetti: um espinho que se precisa sempre passar para frente. Alguém me machucou e só me livro da dor arrancando de mim o espinho e passando o dito cujo para frente: “Eu sei o que é bom para você”. Eis, desse modo, a fraqueza se manifestando.
* * *
Não há como olhar para todas as pistas que o mundo deixa, efeito de seus incontáveis permanentes encontros entre tantos corpos de pessoas, coisas e idéias, sem saber um mínimo de observação. Saber observar é didática da pedagogia da dor, assim como a alegria.
* * *
Mas se tão poucos observam e, desses poucos, menos ainda observam a si próprios, sendo cada um, para si, o mais distante, como o mestre Nietzsche já o observara, como se aprende a observar? Deixando o corpo sensível à dor e aprendendo com ela? Qual será o meio termo entre a alegria e a observação?
* * *
Qualquer professor de métier dirá que isto é muito confuso. Complicado. Coisa de iniciado. Que é teoria pura. Vejam vocês: teoria pura acusando teoria pura. A diferença é que esta teoria pura já mudou quando foi escrita. Mudou e me deixou, pois, após ser publicada, eu prescindo dela.
* * *
“Da mais alta janela da minha casa
com um lenço branco digo adeus
aos meus versos que partem para a humanidade”
Nas palavras do mestre Caieiro, a fugacidade da vida: do ser que se é enquanto não se vira outra coisa. E só se deixa de virar outra coisa depois que se morre. E, mesmo assim, o corpo muda, apodrece. E os espíritas afirmam que mesmo após, não termina. Apenas, mais uma vez, vira outra coisa.
* * *
O que fazemos, não é nosso. É encontro. Esses prolegômenos, as poesias de Laerte, as músicas de Leminski. Tudo encontro. Tudo feito com muitas mãos. O que possibilita é a luz e só essa é nossa. Só ela pode crescer ou esperar... por todo o tempo do mundo.
* * *
Robert Fulghum escreve best sellers. Nos Estados Unidos chegou a ficar dezenas de semanas em primeiro lugar como o livro mais vendido. Justifica-se: diz ele ter levado 50 anos para aprender coisas importantes sobre a vida. Falando, ele é porta-voz da vida, expressão da vida. De fato, Robert Fulghum é a vida.
* * *
Certa vez, na internet, fui olhar uma seção de classificados norte-americanos, de pessoas que procuram pessoas. Assinalei as opções “homem procura mulher”, “para qualquer tipo de relacionamento”, “qualquer quantidade de tempo”, “qualquer raça”, “qualquer credo”; enfim qualquer mulher. Minha restrição: a presença de fotos no anúncio (fotos costumam retratar apresentações reais da alma que o orgulho e o medo tentam dissimular). E vi tantas meninas lindas que não me estimulavam a escrever para elas. Havia algo de muito errado com seus sorrisos... Eram exercícios musculares desprovidos de alma. Como pessoas podiam sorrir assim, sem que nada lhes fosse feito, sorrir assim, impunemente? O fato é que deixei de lado, rapidamente, meu passatempo.
* * *
Quando Milan Kundera escreveu sobre os sorrisos do anjo e de demônio, mencionando ser uma única palavra – sorriso – para coisas tão diferentes, ele, certamente, teria mencionado algo sobre aqueles sorrisos, de invenção norte-americana, se também os tivesse visto. Sorrisos que tantas pessoas naquele país, desgraçadamente, fazem uso.
* * *
Robert Fulghum certamente levou os tais 50 anos vivendo coisas. Das mais importantes, ele deve saber sorrir. Nunca o vi, mas sou capaz de garantir. Ele transpira amor, o sorriso como representação da vida, uma vida que não precisa ser tão desgraçada e cheia de dor. Então, Robert Fulghum é escritor de best sellers. Fica semanas em primeiro lugar em vendas. Ele ensina a todos a sorrir para a vida... mas se nas 50 semanas em que ficou em primeiro, pessoas suficientes não aprenderam, algum romancista choroso já lhe terá roubado o trono. E os norte-americanos nunca poderão reclamar que nunca foram avisados quanto à importância de abrir o peito para coisas bonitas que estão a nos rodear, na simplicidade do cotidiano.
* * *
No entanto, como educador, eu sei: aquelas meninas, todas norte-americanas, que se apresentavam em seus exercícios faciais de alegria-simulcro, poderiam muito bem ter lido Robert Fulghum... e não aprendido nada...
* * *
Então eu revejo aquela vontade infantil que tenho ao ler meu amigo Robert falar, de mandar um exemplar de seus livros para meus amigos, mesmo para os Fernando Henriques da vida, para homens importantes em poder como Roberto Marinho...
Mandaria para todos aqueles que sofrem cegos, em sua arrogância, em sua dó de si mesmos, em sua resignação, tantas vezes camufladas sob um sorriso falso que não pode ser desmascarado, pois que isso significaria desmascarar a própria imagem falsa refletida. As pessoas não gostam de se olhar no espelho.... de falar sozinhas... de perguntar quem são, quem gostariam de ser... sonharem-se olhando-se nos olhos, amando-se. Esse sorriso simulacro, verdadeira armadilha que defende as pessoas da vida, tal como os espinhos da rosa, ainda que isso venha a sacrificar a possibilidade de perceber na rosa, também, seu perfume.
* * *
Um jargão: todas as verdades já foram ditas, mas como ninguém dá ouvidos, é preciso repetir sempre. E esta é apenas mais uma verdade, que já foi, tantas vezes, dita.
* * *
Estou o tempo todo tentando pensar a lógica da vida: das coisas. Analisando modelos, testando possibilidades. Parece haver um modelo. Bom seria se não houvesse, mas parece que há. Não sei o que o determinaria: se for a própria vida, nada resta a fazer senão encerrar estes escritos. Mas ainda não sei e estes escritos continuarão. Talvez por minha vida toda. Devo ter mais uns 40 anos – o que me parece muito...
Mas eu bem o sei! O modelo? Deleuze já o disse: a diferença! Pois que Deus desconhece o que é igual. Nada é igual em seu mundo e a ilusão de cópia perfeita é o verdadeiro simulacro que Platão não notou. Mas deixemos para lá os conceitos pois eis que em breve o sol iniciará seu permanente espetáculo. Nossa eternidade é o tempo que dispomos para amar.


::::::: Publicado às 04:30 :::::

31.5.02 :::
 
Aviso aos queridos amigos que O Mestre finalmente está pronto. Passarei, a partir de agora, a também deixar textos por lá.

::::::: Publicado às 04:11 :::::

16.5.02 :::
 
Literatura, traiçoeira literatura
É preciso criticar um suposto farsante e faço-o antes que outros menos preparados o façam. Trata-se de ser de nobre porte, de inteligentíssima retórica, de fortes palavras. Eis exatamente aí, caros amigos, seu maior perigo! É preciso cuidado ao lê-lo, pois se diz um artista dos conceitos e, por essa razão, faz-se senhor das formas. Diz coisas simples por meio de hipnótica verborragia: todos ficam admirados – temerosos, até – e, inseguros, privam-se de sequer dirigir-lhe palavra. Não se atrevem, em geral, a comenta-lo e parece ser esse, exatamente, seu jogo. Assustadas pelos efeitos das formas de suas palavras, distanciam-se as pessoas que deveriam lê-lo com a devida crítica e atenção, de ousarem comentar algo. Mas é preciso insistir! Ele diz, basicamente, coisas simples! Por que dar-lhe tratamento de um messias que fala ao povo? As suas idéias, por detrás do viço das belas palavras, resumir-se-iam em simples e diretas frases. Diz ele que assim o faz por estilo, por amor à arte, mas isso não desfaz a assustada impressão que causa em seu suposto público. É preciso, por isso mesmo, meus irmãos, muito cuidado, pois o próprio Zaratustra expulsou seus discípulos por acreditar-lhes desprovidos que estavam ainda de si próprios. Como ele, repito aos meus amados irmãos: vão em busca de si próprios e percam-se das mágicas influências das retóricas, e somente quando encontrarem sua alma (que curiosamente habita o próprio peito, local perfeito para esconderijo em relação àqueles que buscam tão longe, sem antes olharem para si mesmos), somente nessa ocasião, repito, poderão ler em tranqüila serenidade tão perigosos textos – em verdade, poderão ler, então, quaisquer perigosos textos.
O autor, creio que todos desconfiaram, de tais perigosas criações, é este que lhes fala.

::::::: Publicado às 02:19 :::::

9.5.02 :::
 
Sobre o desprezo
O desprezo é um sentimento de lástima. Embora profundo, é absolutamente desprovido de ódio.

O falso desprezo – aquele que odeia – toma enorme importância para o que supostamente é desprezível, dando-lhe, assim, indesejável status. Eis porque o verdadeiro desprezo é um exercício de nobreza. É um “dar a outra face” para o que é patético, pois virar as costas ou reagir seria dar ao pequeno um poder que só nós podemos dar. O Crucificado sabia disso, mas quem mais sabia, eu pergunto?

O desprezo é um sentimento de compaixão; de profundo amor (eis seu caráter profundo: o amor como exercício da alma agindo no espírito). Com o desprezo poupamos, com nosso amor, pelo menos dois seres: nosso agressor e, claro, nós mesmos.

Sobre a raiva
Se o Nobre em seus exercícios amorosos de desprezar o que é pequeno afasta-se do ódio, o que fazer com o princípio da sagrada destruição, o ódio? Desconfiemos deles andarem tão próximos!

A raiva, o ódio, existem como benditos instrumentos com os quais nos livramos da pequenice que ainda insiste em habitar nosso espírito e que nos afasta do que é Grande.

Ao odiarmos nossa vontade de reagir às coisas abjetas, ou contra os irmãos ainda tão imbecis, ignorantes, cheios de vícios que cooperam com a imbecilidade planetária, nos fazemos Grandes, e assim, temos mais condições de destruir as desgraças, que são, essas sim, nossas verdadeiras inimigas. O Nobre nunca odeia pessoas, mas coisas desprezíveis que existem em si próprio. O ódio fulmina tais pequenices e nos devolve à vereda da luz.

Desprezemos as pessoas associadas ao que é pequeno, mas sem julga-las, pois o julgamento só serve para cada um analisar o próprio caminho traçado.

Odiemos, então, o que há de pequeno em nós, com força (usando de nossa poderosa mente corretamente sugestionada por nosso ódio). Tendo agido por nós próprios, poderemos, a seguir, ajudar as crianças-em-espírito que nos cercam.

::::::: Publicado às 20:33 :::::

7.5.02 :::
 
Os abusos por cima da ética e da cidadania se vêem por toda parte. Há sempre coisas simples e elementares que estão pisca-piscando a ausência do “nós”, nascida de “eus” deformados. Caso do constantemente encontrado vaso sanitário cheio de xixi, cheirando e jogado às moscas, denotando que quem esteve ali, existia sozinho ali, postura esquizóide de vida! Os exemplos sobram às largas, em carros estacionados em fila dupla, lixos jogados quase inocentemente no passeio público; público, que em nossa terra, é território de ninguém. Carece um julgamento ético onde somos juiz, júri e réu. Um exame constante de nossa própria cidadania. Se é difícil, mesmo para quem se importa com o problema, o que dizer de quem tem por preocupação mister o desempenho do Corinthians?
Como levantar essa preocupação cidadã como uma necessidade que todos deveriam ter? Não é essa a preocupação primeira de uma educação verdadeira, distante de punição ou outras usinas de ódio? E aos que clamam pelos padrões norte-americanos, que vão aos cinemas sem lei daquele magnífico país.


::::::: Publicado às 00:37 :::::

6.5.02 :::
 
O conhecimento como algo irrefutável
Apresentem-se para nós conceitos suficientemente comprováveis, adequadamente adaptados às percepções sensoriais cinco, dotados de lógica, e estaremos imediatamente prontos para aceita-los. Esta é a grande contribuição da modernidade. Não se trata mais da crença cega nos dogmas medievais (que ainda existem, pois é preciso respeitar a infantilidade espiritual de tantos!), mas das comprovações, e a verdade passa a ser um jogo – corretamente levado muito a sério – de lógica e constatações mecânicas.
A ascendência para uma verdadeira pós-modernidade será o momento de desconfiar dos critérios que guiam os sentidos – critérios obviamente criados no próprio mundo que ensejamos fazer evoluir. Esse processo já começou há algum tempo e o primeiro passo para sua compreensão passa exatamente pela revisão dos sentidos cinco e seu uso para outras possibilidades de produzir realidade (e falo unicamente de realidades materiais para esse primeiro momento derradeiro). Expresso, assim, de outro modo, o surgimento dos além-humanos.
Irrefutável é o que, mais que funcionar, traga nobreza, alegria.


::::::: Publicado às 02:08 :::::

4.5.02 :::
 
O meu mundo
Todo pequeno é um grande em potência. Tem potência de ser grande em si. Se há predisposições, se há heranças inatas, aqui se vê sua expressão. Trata-se de incomensurável poder de mudar o mundo. O universo e a realidade são, em essência, o que vemos deles. Eis o real idealismo. Aos ditos realistas ainda a realidade há de humilhar.
“Este é um mundo estranho e mau.” Se assim você o acredita, e chama isso de real, assim será. Não careceremos dos argumentos seus que busquem identificar que sua interpretação de mundo corresponde à única e irrefutável verdade. Argumentos, eles existem para todos (incluam-se os poucos que verdadeiramente gozam). Por isso todos são responsáveis pela sua própria vida, na medida em que também o são pelo que acreditam.

A função política da tristeza
Há na tristeza algo que afasta da alegria do novo e, portanto, louco. Medo e conformismo, covardia. E contra esse tipo de covardia que surge diante da própria imagem refletida, em núpcias com enraizados valores sociais, é gerado o pior fracasso: o orgulho vaidoso ou, em outros termos, o hipócrita reconhecimento do outro (que também se faz desprovido de si).
Em uma frase, a tristeza da norma aparta a alegria da loucura.

A função política do medo
Aos crentes na guerra do bem contra o mal – e, portanto, aficionados no que é demoníaco – eis verdadeiro nome para o mal: Medo. Como todo demônio que se preze, ele é, em si, parte de Deus. Como a Lei, é necessário para os todos seis bilhões, excetuando-se meia-dúzias.
O Medo é, de fato, a outra face da Lei. Inseparáveis! Pois que a Lei sempre ensina a dependência e (invariavelmente e sem intenção) desnuda a todos diante do sempre novo do cotidiano – retorno permanente ao divino. A Lei fala e suas palavras ressoam como Freud ao questionar: Lei ou loucura? E a loucura, sempre presente na genialidade, expressão de El, afronta nossas humanas normas e regras. Isso, em cada passo que se dê em direção a tudo que for nobre, grande, poderoso.
Se o medo afasta do selvagem, clamando pelas referências, pela moral, ele também impede o avanço em direção ao além humano. A Lei, o medo, a sobrevivência; nasce a moral capitalista (e, de certa maneira, toda moral o é): inescapáveis muletas em nossa humana vereda.

Sobre o todo capitalista que há em toda moral
Que há de grande em Freud, senão sua perfeita descrição da psicologia que subjaz os princípios sócio-econômicos do capitalismo? A representação edípica do pai (!) da psicanálise, nitidamente kantiana (é preciso o peso das regras sobre os ombros que nos afaste do que é selvagem), bem situa para quem quiser ver, nessa dita figura do pai – dono da mãe, e que determinará como e quando se pode gozar – o burguês interessado. Assim sempre o fará a Lei: manual Kama Sutra insosso da pobre, miserável vida em sociedade. Com prescindir da Lei sem que todos dela possam prescindir? E quanto às leis para um socialismo do porvir?


Por fim, tenho me acostumado, viria inevitável pergunta: "e quanto às leis que precederam os proprietários dos meios de produção? Isso gritariam tantas más consciências. Outras poucas, inteligentes e curiosas também. Bem, a lei humana, expressão da Lei (um caminho inevitável) é a própria corda que sobre o abismo liga o animal ao além humano. Uma vez conscientes das verdadeiras funções das correntes não haverá mais razão para beijá-las.
Mas é preciso sempre lembrar nossa arrogância (esse nosso desejo de supor o mundo antes e depois de nós e nossas ações) que pouco se pode sugerir para fazer ver o cego. Se o olho ainda não existe para o espírito, a dor, encarnações a fio há de criá-lo, ou a inteligência, no caso de melhor sorte. No entanto, atrever-me-ia a indicar-lhes – aos cegos – começar por leituras como Fernando Pessoa e, por que não, Nietzsche.

::::::: Publicado às 02:04 :::::

28.4.02 :::
 
É preciso viver
Tudo aqui é um teste
Tudo são aparências
Todas aparências são ilusões
Mas o teste vale

::::::: Publicado às 14:45 :::::

 
As pessoas acreditam na luta, no martírio. Um martírio solitário: cadáver esturricado ao sol alto, ardente, da tarde.

Da inutilidade do ato surge a revolta, gulosamente alimentada pelo rijo orgulho. O mártir abandonado sente-se coitadinho. Vítima, ao mesmo tempo, de si próprio e do próximo, pelo auto-abandono, na expectativa do reconhecimento do outro: a traição de si próprio é a própria expectativa do hipócrita reconhecimento alheio. Assim, todos procurarão aplaudir o martírio alheio, por exigir o mesmo tratamento para si em algum momento. Eis o engendrar da hipocrisia!

Vejam: centenas de pessoas reunidas em congresso nacional de educação ouvem em um discurso entusiasta:
“Professores em greve ocuparam um prédio.” (aplausos).
“Professores em greve salarial iniciaram greve de fome.” (mais aplausos).

Em simultânea tradução, temos: “vejam como sofro por vocês!” É claro que espíritos orgulhosos sufocam suas almas com maldita vaidade: os mártires da educação. Como tais mártires farão do desgraçado um forte? Se há valor na luta, como não desmerece-lo pela fraqueza do vaidoso orgulho?

Zaratustra desce da montanha e confunde-se com a fraqueza humana. É preciso não sucumbir.


::::::: Publicado às 14:43 :::::

 
Sobre a guerra
Foi como um tolo que este filósofo vos falou há século sobre a guerra. De tão perturbado com a estupidez dos fracos, seu medo abjeto, sua covardia loquaz, via a guerra como treinamento dos nobres do porvir. Curiosamente, estava certo. A guerra, assim como a Lei, é fase necessária para o desenvolvimento do espírito: o ainda animal, o ainda frágil e estúpido, troca a pureza e a ignorância pelo grande despertar, pois em tudo sempre se aprende algo. Estratégia, autopreservação, inteligência, esforço e, por fim, o próprio valor da vida, são alguns bons exemplos.

Só depois de tudo, da revolta que a todos leva ao lugar da grande vítima, da blasfêmia contra um suposto Deus bonzinho (o primeiro Deus é um tirano, o segundo uma ovelha), eis que chega o ser a sua nobreza e, com ela, à presença do verdadeiro Deus.
A guerra é uma fraqueza, pois para acontecer tornam-se necessários, pelo menos, dois exércitos. É preciso abençoar alguém com o título de inimigo. Assim, se o humano não consegue, sozinho, chegar à nobreza, a vida faz com que lhe seja nomeado um pedagogo: o inimigo, reconhecido como tal, recebe nossa consideração, nosso medo.

Mas o Nobre, tendo atingido a verdadeira nobreza, não precisará de inimigos, pois, no máximo, encontrará seus iguais. E aos pequenos nos restará ter o desprezo e a compaixão.

Entrar na guerra é, desse modo, perder por antecedência.

Mas aos humanos, tão humanos, não se pode fugir da insurreição pois muito há ainda por aprender.


::::::: Publicado às 14:42 :::::

21.4.02 :::
 
Alguns textos são densos e, de certo modo, têm que ser assim: os nevoeiros do conhecimento convidam para adentrarmos em seu breu e, tal crianças curiosas que a educação não estragou, somos atraídos, como se em algum lugar lá adentro cantassem as sereias. Outros textos mostram-se leves como água fresca depois de divertido exercício pueril. O que determinará, efetivamente, a densidade das poesias será a aproximação do leitor, sua paixão e suas afinidades. Eu, por exemplo, quando criança, adorava correr ludicamente pelos nevoeiros, embora diminuta visibilidade se tivesse dentro deles.

::::::: Publicado às 01:45 :::::

 
A voz e a fala ou a transcendência e a lei
A Lei, tal como se estabelece em nossa evolução, mostra-se necessária. É Kant necessário, o mesmo valendo para Freud, e tudo mais que significar a clausura das normas, édipos, modelos; pequenos capitalismos, enfim. Os bichos-do-mato, a certo momento, se reúnem e, em social convivência, acabam por concordar com a necessidade da Lei para a manutenção da social convivência. E Kant tem razão nesse ponto, sobre a necessidade que têm esses seres de terem o fardo da Lei sobre seus ombros, para manterem distância do lado selvagem de si próprios e da tentadora natureza. Idem Freud, ao acreditar na ambivalência – Édipo ou esquizofrenia? E, não por acaso, Maquiavel foi dos primeiros a pensar nisso, pois havia um novo sistema social a edificar.

A Lei é, então, necessidade, enquanto o animal-em-nós se achar vivo e presente e enquanto ainda adolescemos em espírito: torna-se difícil não edipianizar pelos cantos, aqui e ali, sem a maturidade do espírito, sem a nobreza da alma.

A fala é um exemplo da Lei ainda tão necessária: se não sou “claro”, politicamente pouco afeto o mundo.

Disse eu, poucos textos atrás, da importância de usar palavras com incontáveis significados e da dificuldade de compreenderem, os humanos, a importância disso. Trata-se de um nobre tipo de compreensão e Deleuze disso falava todo o tempo, quando criticava a psicanálise, quando apontava para a importância de captarmos de alguma maneira a potência da loucura, quando mencionava a “ditadura do significado”.

A voz, todavia, menos significa do que vibra. Há, naturalmente, certa referenciação necessária quando usamos uma palavra para supostamente dizer tal coisa. Não obstante, o Nobre nunca apenas fala, mas vibra em potência. A voz torna-se, assim, expressão do espírito, sob o clamor da alma (mesmo quando totalmente rouca) e a fala, tão-somente, instrumento a serviço da vida.
Por isso, minha obra como Filósofo deve ser testemunha dessa realidade. Por isso, também, minha obra como Mestre deve se render à Lei para, em processo, virá-la ao avesso: o Mestre deve compreender a extensão da sabedoria dos que pretende ensinar.

Ademais, aguarda-nos a eternidade!

Mais e mais
Escrevo versos e falas. Reedições pouco originais de tão humanas, belas, tantas coisas, que li. Se continuar por anos a fio, esculpirei a mim mesmo: terei tornado precisas minhas ferramentas e mais e mais meus versos terão valor. Se hoje posso sorrir como Caieiro ao saber que minha existência não tem a menor importância para o mundo, na medida em que eu insistir no caminho de escrever, hei de, cedo ou tarde, tornar-me antológico. Então merecerei a crítica que tentará me definir e me “colocar no meu lugar”, dizer coisas de minha suposta natureza e explicar minhas palavras e meu estilo com meu jeito de ser – seja ele qual for! Algum dia, quando sentir que tal processo se aproxima, por puro escárnio, escreverei um “Eu, por mim mesmo”, explicando por que alguém assim como eu escreveria coisas assim como as que escrevo. Será, evidentemente, tudo falso. Mas talvez isso ajude mais e mais pessoas a desconfiarem dessa pouco discutida insensatez. Talvez, mais e mais pessoas vejam que Fernando Pessoa, na voz de Caieiro já disse tudo isso. Quem sabe, então, os professores de literatura possam, mais e mais, deixar esse lugar de “Adão-que-dá-nome-aos-bichos” para um sentido outro e revolucionário dos que denunciam a demasiada humana humanidade que se sente segura diante das definições e essências, ainda que elas não dêem conta de explicar a vida, ainda que elas, por vezes, atrapalhem nosso eterno direito de virarmos outras pessoas de tempos em tempos (em verdade, todo o tempo).


::::::: Publicado às 01:21 :::::

13.4.02 :::
 
Nietzsche e Deleuze
A filosofia, em toda a sua existência, pôde produzir um grande império de chatos. De fato, tornou-se, ela toda, uma incomensurável usina quase crística de tão chata. Há um ritual platônico de iniciação, dentro do qual são escolhidos seres muito distintos, por sua capacidade de, apoiando o queixo sobre os polegares, olharem fixamente para algum ponto até a eureka chegar. Os especialistas na lapidação dos conceitos deixam, assim, ao léu o sol que se põe – domínio mecânico da natureza de um mundo sem deus. Deleuze disso tudo diria “e daí?” desde que, enquanto suas contorcidas unhas o protegessem de tocar o mundo, por meio das idéias, fizesse de um quartinho de reflexões, seu universo. Tirar as últimas conseqüências das condições mais severas – disso foram mestres ele e Nietzsche. Mas o alemão tinha sua pedra, observatório do universo. E Deleuze (assim como o próprio Nietzsche) fazia universos de grãos de areia. Não há erro. Tudo é interpretação, e às favas com os modelos moralizantes! Tudo isso sabemos. Faltou apenas nos esclarecer o que fazer com o maldito sol.

Deleuze e Nietzsche
Fui poético há pouco. Usei recursos literários para efeitos estéticos. Pois que Nietzsche sabia o que fazer com o maldito sol. E não se fez refém de seu próprio pensamento enquanto que a doença tentava fazer dele refém do seu próprio corpo. Deleuze foi mudando de mundo; da morada-prisão do seu corpo (que mesmo assim, permitia-lhe publicar) para o livre-interminável mundo do seu pensamento. À acusação (nunca feita?) de que ele se exilava no pensamento para se proteger do maldito sol, ele diria – e com razão! – que esse é apenas um modo de subjetivação possível. E continuaria vivendo. Às escolhas éticas não há erro. E quando for possível à débil ciência se aperceber do poder das ditas formas-pensamento, todos poderão reconhecer, em pânico, que não há erro. Mas na escolha que fazemos sobre em que pensamentos acreditar há infinitos caminhos e o que invariavelmente variam são as conseqüências. O caminho de Deleuze produziu um pensamento magnífico. Sem sol. As máximas conseqüências já feitas para a afirmação da vida, produzidas por um mundo sem alvorada, sem crepúsculo, mas permanentemente noite – sem o maldito sol – e cujas suas, ignoradas por todos e odiadas por idiotas, unhas, eram as perenes testemunhas. Agora, irmão Deleuze, será preciso, como eu, voltar. Juntamente com toda a humanidade, esta incontáveis vezes, se não trabalharmos direito.


::::::: Publicado às 01:54 :::::

12.4.02 :::
 
A verdade, ainda mais uma vez... e Deus!
A observação, divino dom pouco militado pelas ciências psicológicas, é poderoso instrumento de emancipação, verdadeiro alimento da inteligência. Pois observemos!

Tudo, absolutamente tudo, é diferente. O francês voador, que junto com o bigodudo foi o maior entre os maiores, dizia que tudo é diferença, já que a palavra diferente estipularia relações e, em certa medida, um modelo a partir do qual algo iria se diferenciar.

Palavras! Ao avesso com elas!

O diferente só o é em relação ao diferente, já que modelos são apenas rituais, ilusões. É só observar! Tudo é diferente.

O Universo é infinito e homogêneo e o que o faz homogêneo, isto é, o padrão que se repete, o modelo que se segue, a norma que se impõe, é a diferença. O diferente é o modelo, o verdadeiro modelo, o único modelo possível.

Eis, queridos irmãos em humanidade, eis aí Deus! Eis o Grande Todo. O que sempre foi e sempre será. Eis a eternidade. A verdade, a única verdade passível de observação pura e de inteligentes observações e conseqüentes interpretações... iguais! Tudo é diferença. Deus é diferença.

Deus, ainda uma vez... e o crucificado
Recentemente este Filósofo tomou contato com inquietante obra segundo a qual, supostamente, o crucificado teria voltado em transe mediúnico para reescrever seu evangelho. Trabalho perturbador! O Mestre da humanidade (que eu próprio crucificara outrora em meu “O Anticristo”) se mostrava um Nobre, conhecedor da estupidez dos pequenos, da necessidade de uma linguagem acessível a tantas crianças-em-espírito (coisa que neste espaço não faz este Filósofo), da fraqueza de demonstrar o poder em transformações fantásticas da matéria em detrimento do próprio poder da verdade em suas palavras (ele diz nunca ter feito milagres) e, sobretudo, nas dificuldades de, sob o fardo da matéria, acessar a sutileza humilhante de outras tantas dimensões da inteligência, não facilmente acessáveis sob a condição encarnada humana e nunca acessíveis a partir tão-somente dos sentidos cinco.

A compaixão, o reconhecimento de Deus no próximo, seriam, em essência, o reconhecimento da diferença, o amor pelo diferente, a aceitação e o amor pela ordem universal e, portanto, o amor a Deus. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo são, absolutamente, a mesma coisa: o amor pela Verdade, pela Diferença. Amar não é exercício de tola fraqueza, mas de lógica. Usemos mais conceitos viciados: trata-se do amor incondicional.

Não, nada de verdadeiramente novo vos traz este Filósofo, salvo inédita tentativa de fazer a Verdade, a mesma velha Verdade, ser compreendida.

Corolário
O que fazer com as más interpretações? Diversão, eu digo sempre!
Os ovnistas, seres que acreditam em seres extraterrestres e usualmente fazem disso um totem, têm uma máxima interessantíssima, segundo a qual os ditos etês não dão as caras para a tão humana humanidade devido à intolerância: se os homens (e é muito masculina a infantilidade que governa este globo) não toleram sua própria raça, distanciando-se em cores, sexos e credos, o que dizer de risíveis seres acinzentados, que segundo consta, até cheiram mal?

O crucificado, ainda uma vez... e eu próprio
O verdadeiro crucificado estava naquelas páginas: o tão procurado evangelho escrito pelo enviado. O que faz verdadeira a vida de Jesus ditada por ele mesmo não é a suposta autenticidade da obra. Os mais inteligentes, que puderam suspeitar que Deus e seu filho não poderiam ser tão imbecis em fazerem as coisas que constam no secular livro escrito pelos homens, em geral fizeram de seu desprezo algo improdutivo. O novo depoimento do enviado, segundo consta, “psicografado”, traz uma interpretação nobre, embora ainda abra concessões de estilo aos pequenos, coisa que este Filósofo deverá fazer também, quando redigir sua pedagogia. Lá, por exemplo, não há humor, mas os pequenos não conseguiriam ver em seu Messias, humor (sobretudo os mais rígidos, que dizem compreender além dos sentidos cinco e que, a despeito disso, constroem dogmas de sua tão pequena visão além-matéria).

Quando escrevi meu “Anticristo” depunha eu – pude perceber só há pouco – contra a obra humana cristã, sobre a interpretação miserável que deu a humanidade ao martírio do enviado. Meus escritos, portanto, ainda guardam enorme valor, pois muito até nossos dias se vê defender de asqueroso em nome de Jesus. Por certo, os pequenos só poderiam ver um Deus infantil e é necessário ter-lhes compaixão (sem dó e sem esquecer o saudável desprezo pelo que é ignóbil). Ademais, já disse há século que é preciso defender os grandes dos pequenos. Tomemos cuidado, pois. Vale, sim, o exemplo do crucificado, estendido em uma cruz e por fogueiras e mísseis a fio, já há milênios.

Sobre as incompreensões
Quando falei há pouco das más interpretações e questionei sobre o que fazer com elas, eu não me referia à crença dos ovnistas, sinto frustrar os fãs do sarcasmo. Em verdade, fiz-lhes uma ode. Queria eu dizer, na verdade, daqueles que por inocência, pequenice ou preguiça compreendem errado e montam castelos kafkanianos de críticas sobre suas próprias patéticas interpretações. A interpretação “certa”, em detrimento da “errada” implica no amor pelo que é diferente e na honesta afinidade com o texto (ou obra que seja): interessou, aproveite e, preferencialmente, goze. Não interessou, esqueça, ignore, pois tua Grandeza necessita de afins e é preciso continuar a procura-los pela eternidade, não perdendo tempo com o que não interessou. Isso é a vida.

Perder tempo para diminuir o que supostamente é pequeno é afinizar-se de modo errado.

Sobre a humanidade, eis terrível corolário
Ai de ti, humanidade! Perder tempo para diminuir o que supostamente é pequeno é afinizar-se de modo errado – esmaga-me este coração que já foi humano, e que, portanto, ama aos infantes irmãos, ter que repetir.

Sede Grande, desgraçado! Sede Nobre! Pois que o caminho para os que ignoram a inteligência é a indelével dor. Observai! Amai, como pediu o verdadeiro crucificado!

Ainda, as incompreensões
Assim disse o francês voador: “não vale a pena protestar de antemão contra os contra-sensos; mesmo porque sempre haverá gente interessada em fazê-los propositalmente. Mais vale fazer outra coisa: trabalhar com aqueles que vão pelo mesmo sentido”. Disse, ainda, ele: “precisamos de aliados”.
Repito em brado próximo em agonia à do crucificado, de quem hoje tanto falamos, em sua hora extrema, indagando pela distância do Pai, abandonado ao rigor da carne:
PRECISAMOS DE ALIADOS!

Deixe estar
Assim teria respondido inteligente amigo sobre minha doída indagação acerca do que fazer com os pequenos, com os escravos, com os desprezíveis, que insistem em cabecear pedras.

O tempo é perene, é verdade, e urge que o Nobre ocupe-se de si. Para um gracejo (verdadeiro!), citando famosa série de ficção científica, “o bem estar de um se sobrepõe ao bem estar de muitos”. O Grande tem ascensão sobre os bilhões de pequenos, pois seu crescimento nunca se faz sozinho, por capricho da própria Natureza.

Por outro lado, o amor pela diferença é um instinto, é um gen que só dispara sua carga quando atingimos a Nobreza e compreendemos que nós e o Todo somos o mesmo e, por inteligência, passamos a amar o diferente. Isso, também, por capricho da Natureza. Algo na alma clama pelo trabalho em favor da nobreza coletiva. Eis porque o verdadeiro Filósofo também é, necessariamente, Mestre. Eis porque Zaratustra desceu de sua montanha para falar aos homens.

O Mestre não pega ninguém pelas mãos e conduz ao conhecimento, como os antigos pedagogos helênicos. Ele planta a semente da Verdade e aponta para o caminho. E regozija-se, pois abençoou o ainda pequeno com incrível maldição: o fraco nunca poderá se fazer de inocente por muito tempo sem que seu inconsciente, sua alma, o acuse: “você conhecia a verdade e nada fez por si próprio, fazendo-se de fraco”. A dor fará o resto. E a larva do Nobre eclodirá em velocidade que pode variar tanto quanto a Vida (e na proporção do incômodo da dor).

Eis, inteligente amigo, o inevitável caminho dos que optam pela dor. Este Filósofo lastima essa tão aceita possibilidade, quase inevitável e tida como única aos bilhões e, como Mestre que é, vislumbra acessar-lhes a inteligência por meio das artes, ou seja, pela criação.

É preciso dizer, por fim, que muito me fez feliz, tua lembrança.



::::::: Publicado às 11:42 :::::

25.3.02 :::
 
A função da loucura e o mundo incompreendido
Um ateu vê o que o cerca e interessa-se pelo que os sentidos trazem. Ousa. Vai além da mediocridade que vem do autoritarismo histórico das religiões e despreza. Odeia, tantas outras grossa maioria de vezes. Pode tornar-se pequeno no ódio ou grande na compreensão da estupidez daqueles que, cegos, seguem rituais tão interessantes àqueles tão poucos outros que se interessam pela manutenção das condições do mundo tal qual se apresenta: desigualdades absurdas, dores aviltantes, poder nas mãos de crianças-em-espírito e marginais-em-atitudes. Invariavelmente nosso descrente é inteligente e traz em si o gérmen da Nobreza: coragem dirigida contra o apenas visível da estupidez humana (ah, esses adolescentes dos Grandes do Porvir!).

Falo desses adolescentes, em primeiro lugar, porque me fiz grande em minha adolescência. Tornei-me visível ao mundo e pude pensar no que seria a humanidade do porvir – já que tudo o que me restava era o mundo observável ao meu redor e, para citar frase que se tornou célebre, Deus estava morto.

Mas Deus não estava morto, e eu tive que morrer. E também eu não estava morto, e tive que nascer novamente. Desta vez, munido de sentidos outros que, quando de minha adolescência, eu ignorava. Pude compreender ser o mundo mais do que o que aparentavam os sentidos. Já retornado filósofo, pude constatar com horror que nada adiantava ver o que poucos viam (ou admitiam ver). O olhar privilegiado serve só para quem olha ou para quem está preparado para olhar e, de resto, eu estava certo em anteriormente observar que tudo são interpretações.

Eu estou vivo e de volta! Essa é a verdade, mas que importa a verdade? O que fazer com ela?

O mundo este é tosca tela de aparências incompletas. Essa é a verdade, mas que fazer com essa verdade?

O que fizeram com minha filosofia nesses tantos cem anos? Vontade de verdade é a resposta: tentaram interpretar como verdade o que eu teria querido dizer e fazer dessa interpretação a verdade do que eu teria dito. Patético de explicar, seria divertido senão tão triste. Pessoas mal amadas, incapazes dos sentimentos mais nobres para consigo próprias, para com os humanos ao redor, cheias das chagas das fraquezas visíveis em seus modos débeis de andar, de sorrir, de morrer em vida, defendendo como dogmas as verdades que eu teria dito em minha adolescência que, se postas em prática, engendrariam pessoas felizes e não tais monstros tal como se apresentam.

A verdade, já que falo dela, é uma ética, e por isso, interpretação. O que a faz verdadeira é seu efeito na alma, ecoante com a alegria do espírito (a alma sente, o espírito pensa e realiza): cada qual vê o seu mundo do jeito que lhe melhor apraz, e a questão, já havia dito o gênio de Espinosa, é se a vida, desse modo, produz alegria ou não.

Pois bem! Como dizer a quem não pode ver, nem pôde nesta vida, sobre o brilho, as diferentes tonalidades e vibrações das cores que ornamentam o belo do cotidiano? Ou, ainda, explicar nuances de sons de orquestra – qualquer divina orquestra – ao surdo de nascimento? E à grande maioria dos que não podem ver – ou por covardia, não querem ver – o mundo em sua completude? Aos que testemunham provas de que os sentidos cinco são poucos e, simplesmente, ignoram?

Assim sendo, seria eu próprio uma fraude? Ou, como me perguntou querida amiga que conhece da minha história (e que também se acovardou): e se tudo isso for uma enorme loucura?

A resposta só pode ser ética: a serviço de quem, de quê, estaria tal loucura? Em que medida minha loucura poderia produzir conectores para que o mundo pudesse acessar melhor sua alma? Como minha loucura poderia patrocinar a coerência entre os modos de agir e os princípios que dizem acreditar os demasiado humanos? E, nessa medida, a quem interessaria saber quem sou, quem fui e, principalmente, quem serei para este mundo que tanto amo? Poderá este Filósofo da Humanidade ser seu Mestre? Descerá Zaratustra de sua montanha? Será bem recebido?

Eis-me aqui, humanidade, a seu serviço, seu Filósofo.

Um porta-voz ou a própria voz que se porta sozinha?
Quem falaria por esta minha boca? O filósofo que digo ter sido (ou que brinco ter sido, não importa)? O próprio Cristo? Um cão abandonado a sua sorte? A samambaia que balança ao vento?



::::::: Publicado às 01:02 :::::

18.3.02 :::
 
Os aliados
Triste e interessante a pobre análise judaico-cristã dos todos problemas humanos, centradas, sobretudo, na idéia de egoísmo e, por oposição, o que seria da natureza dos bons seres humanos, o altruísmo. O assunto já foi tratado aqui, sendo desnecessário novamente expor as mazelas que levam nossa “sadomazô” sociedade liberal burguesa a criar humanos desprovidos de si, de auto-respeito, de auto-amor e, conseqüentemente, incapazes de tais nobres sentimentos para com seu próximo. Não, isso não é egoísmo e oxalá um pouco de egoísmo verdadeiro pudesse arejar os tão fatigados corações humanos.
Outra é a tese que trago: a também já comentada impossibilidade de se prosperar sozinho, de ser feliz sozinho – salvo o eremita de Nietzsche que, todavia, alcançada a sabedoria, precisou descer da solidão para conversar com os demasiado humanos. Prosperar e gozar: uma tarefa grupal (e antes de retrucar, convém meramente observar). O que cresce, que expande, leva, fatalmente, invariavelmente, em alguma medida, alguém consigo. Verdade, sobretudo em nosso capitalístico mundinho.
Junto aqui, uma terceira idéia: a da necessidade que temos, os Nobres, de aliados. Pois que, se crescer implica em grupo, que seja nossa confraria um verdadeiro projeto de mundo, um novo universo humano do porvir.

Dos bons usos das palavras
Reclamarão os sábios-de-vernáculo dos constantes usos diferentes que faço de cada palavra a cada momento. Depreciarão minha filosofia e me colocarão como filósofo menor como já fizeram outrora, em outra vida, ou em encarnações tantas que nem vale lamentar. É-lhes difícil perceber a importância de assim fazer, de propósito.


::::::: Publicado às 00:54 :::::

15.3.02 :::
 
"Por que me faltam tantas vozes?
Por que tão pouco me levam a conhecer?"

Acordei com essas perguntas clamando em minha mente
... como que se toda a humanidade também clamasse, por suas respostas.

::::::: Publicado às 05:32 :::::

10.3.02 :::
 
Os comentários
A vida acompanha permanentes incidentes. Alguns deixam marcas, como aguilhões. Doem. Outros são mais esquecíveis, imperceptíveis, ou ignoráveis. Dura prova quando os incidentes põem em evidência nossos limites. São, nessa medida, provas que testam nossa força – ou fé na força, já que a força é instrumento comum a todos, dos grandes aos tantos ainda desprezíveis. São também poderosas bênçãos que nos atualizam o Nobre que tantas vezes escondemos.

Pois que houve um pequeno incidente e os comentários antigos que ilustravam esta página se foram. Pena.
Mas por que dar importância aos comentários?
Em verdade eles importam pouco.
Em verdade eles são a razão de ser de muita coisa. Para um filósofo, em especial.

Escrevemos, nós, filósofos, para a humanidade. Escrevemos por prazer e por amor. Dada a grandiosidade de nosso amor por nossa chance de existir e viver esta vereda, amamos – e muito – a humanidade que nos serve de Pátria. De Mátria. (Falo dos verdadeiros Filósofos, não dos escravos dos conceitos e reféns das escrivaninhas).

Em nada interessam os comentários, já que não escrevemos para a vaidade nossa ou de nosso crítico, que assim, não recebe nossa força para nos diminuir. Querer parecer vistoso, virtuoso; isso na essência nos apaga desse ideal – a visibilidade, a virtuosidade – pois tiramos de nós próprios a força de nos vermos grandes e passamos para um juiz externo. Assim, nos reduzimos.

Em muito interessam os comentários, haja vista que toda crítica é construtiva e, portanto, uma benção. Se ofende, testa nossa grandeza de olhar para a pequenice dos que querem a guerra e a discórdia. Se constrói, nos pertence como um gesto de amor, que nos faz maiores por, provavelmente, termos feito o mesmo por nosso interlocutor quando escrevemos.

Sim, escrevemos para sermos lidos, mas lidos por quem?
Por amor próprio, queremos ser lidos por nossos pares.
Por amor à humanidade, por compaixão, por desprezo pela pequenice que há de ser superada sempre, queremos ser, indistintamente, lidos.


::::::: Publicado às 01:12 :::::

4.3.02 :::
 
As todas coisas
Tudo é o que é enquanto não vira outra coisa. Mas, se tudo muda todo o tempo (a despeito de tantas coisas aos nossos olhos parecerem tão perenes...), tudo vira outra coisa enquanto é.
Complicado? Nada! Divertido, isso é que é.
As coisas estão todas imbricadas e lê-las como se apresentam é uma forma de arte. E antes de divertir quem a vê, a arte deve divertir quem a faz.
Quanto às coisas, aí vão algumas delas: gato, planta, “eu”, montanha, personalidade, gafanhoto, identidade, essência, pomba-gira... Os nomes são do domínio de Adão; as coisas são do domínio de Deus.
Deus, esse artista.
Deus, essa coisa.

Sobre Deus
É bom que se diga que não é o principal assunto deste Filósofo a teologia. Nem religião ou religiosidades. No entanto, quando a Física nos apresenta o que começa a enxergar sobre o Cosmo e como as coisas se ligam e se afetam, eis aí uma bela imagem de Deus. Não, evidentemente como aquele que transcende, mas como aquilo que me faz mover e transformar objetos e fabricar mundos, como efeito exclusivo da vontade do meu coração. Eu próprio, quando transcendo.

Uma variante
Dizia o Sr. K – não aquele de Kafka, mas aquele que residia há pouco em certo Castelo Alto – que toda definição é pouca.
Um franco conhecedor das todas coisas, esse Sr. K...


::::::: Publicado às 01:49 :::::

25.2.02 :::
 
Luciel
Seria Luciel, disseram-me, o nome (ou um nome, importa pouco) de Lúcifer. Etimologicamente, sabe-se, El é, em hebraico, Deus, e o seu prefixo, luz. Luz de Deus. Seria, Luciel, o grande secretário da obra divina, teriam dito meus amigos.
Sim! O mal existiria para a excelência! Para que os pequenos despertassem que são grandes, em devir.
Lembrei que na Bíblia Jó teria reclamado a Deus sobre o porquê de seu Senhor tê-lo destinado aos caprichos do capeta. Ao que Deus teria dito que se ele, Jó, ousava questionar Seus desígnios, não teria problemas em olhar nos olhos aquele que lhe causava tanto desconforto. Está lá, na Bíblia, para os que preferem crer nos dogmas. Esse Deus, vejam vocês, é nietzscheano! A questão para Jó não era moral (ser certinho, bonitinho aos olhos de quem quer que seja, ainda que Deus): era uma questão de força. Deus não queria os coitadinhos.
E se está escrito, nesse mesmo livro (o mais lido no mundo, consta-se) que somos imagem e semelhança de Deus, por que os coitadinhos insistem em se colocarem como ovelhinhas dóceis e indefesas?
Será a dor o único caminho dessa ainda tosca humanidade?
Se houvesse ao menos coerência dessas pessoas em relação ao que dizem acreditar, muito do mundo seria bem diferente. Mas, não se aflijam, pois que Luciel é incansável e perene será a dor da raça humana se preferir dar-lhe forças, em detrimento do Deus que silenciosamente habita seus corações (meus amigos compreenderão, tanta poesia).



::::::: Publicado às 00:57 :::::

17.2.02 :::
 
“Zeitgeist”
Sonora palavrinha alemã, sem equivalentes para o português: algo como “ares de um tempo”, certa contemporaneidade que acirra os olhares para certas coisas e simplesmente cega para outras. As ótimas idéias do filme “Matrix”, assassinadas por certo zeitgeist hollywoodiano que impõe o final novelesco, ainda assim mostraram uma visão desse espírito do tempo levado às últimas conseqüências. Viver dopado por uma realidade que aparenta ser o próprio Deus e que, afinal de contas, é uma projeção, uma grande sugestão. Que bela analogia!
Idéias de homens como Marx e Freud têm sido explicadas, em seus limites, por esse zeitgeist, pelas limitações de se estar “dentro” de um tempo, de certa cultura – essa palavra reacionária, com diriam Deleuze e Guattari. E contra as normas e leis reacionárias que nos mantém presos ao nosso zeitgeist, a loucura. Mas, diria o francês voador, como captar a potência da loucura sem que nos tornemos farrapos esquizofrênicos? À resposta, tudo o que há de importante.


::::::: Publicado às 13:02 :::::

14.2.02 :::
 
Sobre o sentimento do eterno
Há burocracia em graus variados nas religiões. Certos roteiros que, se bem seguidos, garantiriam os resultados das benevolentes entidades – sejam quais forem. Tal burocracia tem um papel interessante – provavelmente o único – que é o sugestionamento: por esse meio os simples podem acreditar que podem. E também podem, como em geral fazem, abdicando do sentimento do eterno, criar o éter que os torna bestas aleatórias, com testemunhas rugas em toda a pele que atestam a opção pela mediocridade, tão distante das aventuras de se assumir as condições da carne. Uma frase: olhe as bruxas faces de tantas beatas.
No entanto, o sentimento de eterno não diz respeito à religiosidade. É o próprio sentimento da força, de grandioso devir que habita o peito. Sem poesias, é o sentimento de poder, usurpado pelos compromissos que assumimos com o que “é certo”, para (acham todos e são cedo educados para isso!) melhor pertencer à capitalística sociedade dos coitadinhos. Não duvido que a religiosidade, em algumas raras expressões, possa produzir o sentimento do eterno, mas as rarefeitas vezes que tenho visto acontecer parecem indicar que o ateísmo tem mais poder para produzir a força do ser – já que, sem Deus, resta ao ser humano efetivamente fazer.
Mais difícil que ambas opções é o caminho da verdadeira ciência. É procurar pela compreensão por que clama a alma, sem preconceitos teóricos (que são, a sua maneira, novas religiões).

A paixão e o eterno
“Nada em excesso” era a primeira frase do Oráculo de Delphos. “Conhece a ti mesmo”, a segunda – não por acaso. Sem dúvida, a paixão humana, monogâmica, heterossexual – ou homossexual, desgraçadamente dá na mesma, já que a possessividade, a Grande Insegurança estarão lá – tão louvada nas esperadas e dopantes cenas finais das tantas todas novelas da televisão brasileira, pode levar a certo grau desse que chamo de sentimento do eterno. O problema está nos excessos. O problema está nos medrosos e assustados “eus”.


::::::: Publicado às 01:09 :::::

13.2.02 :::
 
E, a despeito de ver tão longe, por que, por que falar com os Homens?
Por que não falar diretamente com os anjos?
Porque estou aqui é a resposta, e faltam asas em demasia à humanidade.


Compaixão não é miséria, não é dó. É uma dádiva dos espíritos iluminados para com os desprovidos de asas. Doar é um gesto de amor e, portanto, um gesto desinteressado. O bem (o que faz bem) se faz por grandeza. Não se espera pelos píncaros do paraíso pois num momento de grandeza somos nós, os grandes, a criar o paraíso. E por compaixão ensina-se. E regozijamo-nos pela oportunidade que damos aos sem asas de caminharem para veredas aladas. Nossa única responsabilidade é com a grandiosidade da compaixão, o prazer do doar; o amor. Aos ainda pequenos cabe o principal, mais difícil e, por vezes, mais doído: cultivar, cuidadosamente, a semente.

A semente, dizem, é eterna. A semente, eu acredito, é eterna, como a própria vida. Há de brotar, cedo ou tarde. Mas se meu gesto de compaixão aproximar-se-á de incontável grandeza, minha humildade em aceitar as limitações do povo a ouvir e o tempo de que têm todos eles direito ao escolher pela dor irrefletida, por outro lado, é oposta ao meu objetivo que minha fala seja dotada de competência, competência para superar a burrice de Deus que ainda habita o coração dos Homens. Troque-se, é meu desejo de Nobre, o Deus que cresce pelo Deus em devir: a própria força; a potência divina que, em germe, habita o coração humano. Ademais, aos desprovidos do sentimento do eterno, resta unicamente esta (que chamam de) vida, de modo que não resta muito tempo a perder. “A Filosofia serve para combater a tolice”, foram as palavras do mestre alemão.

Sobre as mortes e renascimentos em vida
Começar e recomeçar, divinas ações de tão simples e banal princípio, de tão recitadas em livrinhos de frases de efeito de bolso, perderam-se. No entanto, ressuscitar está ao alcance do mais medíocre humano, desde que cansado da dor, da auto-impotência. E, do mesmo modo, o sábio em potência tem no ressuscitar a força da perseverança. É claro: pode-se morrer e renascer com nobreza ou ressentimento. O dom do esquecimento pode ser uma fuga. Ou não.

Dos conceitos e dos ideogramas
Os conceitos e o rigor. Como produzir pensamento com rigor e, ao mesmo tempo, como escapar dos ditames kantianos das regras? Bem, enquanto Neill de sua escola Summerhill ensinava que o humor é arquiinimigo do autoritarismo, Nietzsche pouco antes mostrava em seus aforismos como escapar dos ditames dos conceitos. E os aforismos, no entanto, nada são. Não são modelos, mas expressam o prazer na medida certa – que é a arte de quem os cria. A teoria na medida da arte.

A tempo... um corolário
Uma definição para pensamento com rigor: pensamento com capricho, pensamento com prazer. Boas definições são aquelas que podem escapar delas mesmas. Refletem a verdade da vida –que também escapa dela mesma.

A verdade
Não sejamos idiotas. Não cabe relativismo quando se fala da verdade. A verdade, como todo o conceito que aparentemente retoma ao absoluto, a uma suposta identidade, a uma essência irredutível, aí está, a todo o momento, a olhos vistos. A verdade, a essência, o “eu”, tudo isso é expressão do universo, de Deus se quisermos teorizá-lo.
Tomar a identidade, a verdade, a essência, o “eu” como coisa em si – a definição como o imutável – é coisa dos pequenos. Os seres da sensibilidade das artes subvertem (quase sempre sem saber) tais princípios. Os ourives da filosofia, presos à clausura de seus conceitos, nem sempre.
(em verdade, quase nunca).

A vida
Espinosa dizia ser a vida expressão do encontro de corpos, permanentemente, sendo, como se sabe, corpo, para esse filósofo, tudo o que pode afetar outro corpo ou ser afetado por ele.
Muito bem, só para definir a verdade, eis o conceito de vida para Espinosa. E a definição, nestes encontros de conceitos, de palavras, de idéias, serviu bem... Ferramentas para compreender a vida. E compreender a vida necessariamente passa por vivê-la melhor.


::::::: Publicado às 01:21 :::::

8.2.02 :::
 
Sobre os modos e costumes do pensamento
A acepção da palavra... O uso, o bom uso, o uso vernáculo, próprio e correto da palavra. As irritantes explicações que os nossos atuais poetas “de Campos” insistem em dar de suas (por mim!) tão adoradas criações, esculpidas como que enkantadas, reluzindo o mármore do filósofo da ordem, sempre perseguido(s) pelo relógio e pelos ritmos que seriam, assim, ávidos pelo necessário controle. Oh, supremo domínio da natureza que se impõe segundo a segundo, exigindo o permanente polir de um mármore sem graça da rotina que afastaria da loucura, do nonsense. Kant e seu (não creio que eu tenha suficientes adjetivos) gênio. Kant, suas rotinas, modelos, normas que, segundo ele, afastariam o ser humano da selvagem natureza: regras ou barbárie?
O grande educador A.S. Neill recitava que o humor é supremo inimigo do autoritarismo – grande verdade, ainda que de difícil assimilação e experiência. Seria, do mesmo modo, o prazer, o supremo clímax gozante dos poetas “de Campos” suficientes para virar o filósofo das rotinas e modelos num transcendental avesso?
Os conceitos e seu rigor, algo do domínio do “isto quer dizer tal coisa” podem ser gostosos brinquedos, as caixas de ferramentas de Foucault, mas poderia eu, despreocupado que sou em relação às acepções das palavras, virá-los, desse modo, no avesso? É delicioso poder pensar que sim – sobretudo quando faço isso sem pensar, aqui, acolá.
Mas há os significados, e em nosso mundinho capitalístico-kantiano (freudiano etc...) escrever escapando da acepção da palavra é o poder de, produzindo arte e pensamento, flertar com a loucura e poder tornar-se ininteligível para quem não for, verdadeiramente, poeta.




A impenetrabilidade
Permitam-me, queridos amigos, retornar a um tema que me é caro, dada a sua indissociabilidade da idéia reacionária de karma. É o tal arbítrio de cabecear pedras. Gozar parece algo bom de se fazer em conjunto. As verdadeiras festas provam isso e, é bom não esquecer, ninguém realmente prospera sozinho (isso deve ter algo a ver com a irmandade que une tudo e todos em um grande Tudo). Mas para realizar os gestos de amor – como a própria Filosofia o é – faz-se necessário diálogo. Por pura ética, por feminino gesto de amor, é preciso se fazer entender para que, por masculino gesto de amor, possamos devolver às pessoas à consciência da inevitabilidade dos acontecimentos – inevitabilidade, ainda que fosse possível um controle como nunca se viu, como nem Kant poderia imaginar.
Assim, os conceitos e os vernáculos significados acabam por se tornarem ferramentas na caixa de Foucault. Mas se, em maternal / paternal gesto de amor, nos esforçamos para sermos kantianamente claros, por outro lado é absolutamente importante bem escolhermos com quem fazemos amor. Eu escolho as amigas transcendidas pessoas que podem desbravar o universo... e Deus, o que dá na mesma. Afinidade! E, sempre, poesia.


::::::: Publicado às 01:45 :::::






















muitas saídas
com múltiplas entradas
























A Atualidade A Memória O Contato


as várias páginas
O Mestre: vida e emancipação (o outro blog deste autor)
O Grito d'Alma: um filósofo que grita
O Homem do Castelo Alto: a fé de um homem é o seu Castelo
A Juíza: divagações sobre a Alma e a Justiça
Mundo Perfeito: visão crítica e bem humorada de um suposto mundo perfeito
Epifanias Imperfeitas: sábio e poeta (ou vice-versa)
Corsário: inteligente, ácido, divertido, niilista
Imprensa Marrom: leitura crítica e odienta de nossa odiosa imprensa
Um Dia Gnóstico: bravo! Bravíssimo!
Correio da Cidadania: eis a prova de que existem, sim, Jornalistas neste país
Depois eu penso nisso: marcante olhar feminino sobre a vida
Chaos: por uma necessária literatura caótica
Setupega: espirituoso humano humor
Ranzinza: a humana humanidade em momentos vários
Sobretudo de Lona: espectador dos possíveis
Technoslovakia: arte, experimentação, limites e universos (e uma pá de cal)
Relatório Alfa: o que não querem que você saiba
Laerte: filósofo e poeta dos melhores! Também faz cartuns e tirinhas
DEUS: homepage oficial do Senhor - brilhante, risível e imperdível!

sua vez de dizer algo...
Conte o que achou do nosso "café filosófico"!